SANTA BÁRBARA D'OESTE — Encontrada em um galinheiro, uma Romi-Isetta de 1957 está sendo restaurada pelo colecionador Flavio Fernandes, que começou o trabalho em 2018. O carro também inspirou uma réplica elétrica com controle remoto para o neto. A história resume a permanência do modelo que, neste mês, completa 70 anos do lançamento no Brasil.
A trajetória comercial do compacto foi curta, mas a Romi-Isetta se tornou uma referência industrial. Produzido pela Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, o veículo tinha uma única porta na parte dianteira e mais de 70% do peso formado por peças fabricadas no Brasil.
Um projeto apoiado pela indústria existente
Antes do modelo, os automóveis eram importados ou montados no país pelo sistema CKD, no qual as peças vinham do exterior e o veículo era montado localmente. A Romi, que produzia máquinas agrícolas no interior paulista, já tinha estrutura metalúrgica e trabalhadores especializados quando passou a fabricar o carro, em 1956.
O empresário paulista Américo Emílio Romi idealizou a produção em série. Seu enteado, Carlos Chiti, conheceu o Isetta por meio de uma revista, viajou à Itália e obteve autorização para que o veículo fosse produzido em Santa Bárbara d’Oeste, segundo Antonio Carlos Angolini, idealizador do arquivo da Fundação Romi.
Para Mário Sacomano, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a experiência da empresa com máquinas-ferramenta e implementos agrícolas exigia precisão mecânica e domínio de componentes metálicos complexos. Essa base permitiu que a Romi se antecipasse às grandes montadoras que começaram a chegar ao país a partir da década de 1960.
“A Romi chegou primeiro porque já possuía capacidade industrial instalada”, afirmou Sacomano.
O impacto na cidade e na cadeia produtiva
A fabricação de tornos, fresadoras, implementos e máquinas havia formado, em Santa Bárbara d’Oeste, uma mão de obra próxima daquela exigida pela indústria automobilística. Na avaliação do pesquisador, a Romi-Isetta fortaleceu a cadeia metalúrgica, ampliou o emprego industrial qualificado e reforçou a identidade industrial do município, antes associado à agricultura e ao meio rural.
O legado também envolve uma rede de fornecedores locais, a nacionalização e o desenvolvimento de componentes. A produção do modelo ajudou a demonstrar que uma empresa brasileira poderia reunir estrutura industrial e capacidade técnica para fabricar um carro de passeio em série.
Reconhecimento oficial ficou com outro modelo
A política de industrialização do governo Juscelino Kubitschek e o Plano de Metas direcionaram a formação do setor automotivo. Com critérios definidos pelo Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), o governo não reconheceu oficialmente a Romi-Isetta como o primeiro carro nacional por causa da porta única frontal.
O título ficou com a DKW-Vemag Universal (Vemaguet), lançada dois meses depois e equipada com duas portas e quatro lugares, exigências estabelecidas pelo governo. O modelo tinha 54% do peso em peças nacionais e era produzido no Brasil sob licença da alemã Auto Union, então proprietária da DKW.
Sacomano afirma que a política priorizou o ABC Paulista e empresas com grande capacidade de investimento, deixando em segundo plano iniciativas pioneiras do interior. Para ele, documentos registram a atuação de empresas multinacionais junto ao governo de JK durante a definição da política industrial.
Memória preservada por colecionadores
Fernandes conta que procurava, com a esposa, um automóvel ligado às memórias do automobilismo brasileiro quando encontrou a Romi-Isetta. O casal participou do Encontro de Romi-Isettas 2026, realizado no último dia 5 de setembro na sede da Fundação Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, na data do aniversário de 70 anos do lançamento.
A réplica elétrica feita para o neto mantém a ligação entre o modelo e as novas gerações. O veículo original, porém, continua em restauração: segundo o colecionador, está quase pronto.
Um marco diante das mudanças atuais
Para Sacomano, a história da Romi-Isetta expõe o desafio de combinar investimento estrangeiro e fortalecimento de empresas nacionais. O economista José Eduardo Roselino afirma que o setor passa por uma transformação associada à descarbonização e à transição energética, com o avanço de veículos híbridos, híbridos plug-in e elétricos.
O cenário também é marcado pela expansão de montadoras e produtos chineses, apoiada no domínio de software, semicondutores e sistemas eletrônicos. Nesse contexto, a experiência da Romi permanece como referência de uma fase em que a capacidade industrial local foi usada para criar uma cadeia de produção automotiva no país.








