SÃO PAULO — Os Estados Unidos articulam uma aliança de segurança entre Israel, países do Golfo e o próprio governo americano, segundo o jornalista e analista político Henrique Cymerman. O plano teria como objetivo conter o Irã, mas dependeria da formação de um governo estável em Israel e da abertura de um caminho para a criação de um Estado palestino.
A proposta incluiria Israel, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia e outros países. Cymerman descreveu a iniciativa como uma estrutura semelhante a uma aliança militar regional. Para que o acordo avance, Israel também teria de buscar um acordo de paz com o Líbano, um acordo de segurança com a Síria e uma normalização das relações com a Arábia Saudita.
Crises internas e cenário eleitoral
O analista avaliou que o atual governo israelense enfrenta crises internas e externas, além de divergências com os Estados Unidos sobre o desarmamento do Hamas, aumento da violência na Cisjordânia e isolamento internacional. Ele afirmou que o governo é formado por uma coalizão com partidos de extrema direita e que suas políticas prejudicam os interesses de Israel.
Cymerman disse que eleições se aproximam em Israel e nos Estados Unidos e que o primeiro-ministro Netanyahu enfrenta um período eleitoral complicado. A eleição israelense está marcada para 27 de outubro. Para o analista, a criação da aliança regional só será possível se Israel tiver estabilidade política.
Sobre uma eventual sucessão, Cymerman afirmou que o cenário para Gadi Eisenkot formar um governo é imprevisível. Eisenkot poderia precisar do apoio do partido Ra’am, ligado ao parlamentar Mansour Abbas, e de outras legendas. O partido anunciou Yoav Segalovitz como número 2 da legenda. O analista afirmou que esse movimento pode facilitar uma coalizão com Avigdor Lieberman e Naftali Bennet.
Eisenkot também teria dito a Abbas que ele poderia integrar uma coalizão caso aceitasse a continuidade de Israel como Estado judaico e a exigência de serviço militar ou social para jovens árabes. Segundo Cymerman, Abbas concordou, mas a formação do governo dependeria de muitos partidos.
Efeitos do ataque de 7 de outubro
Cymerman afirmou que o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 alterou a realidade dos israelenses e a dinâmica do Oriente Médio. Ele relacionou o episódio às mudanças nas relações entre Israel e Líbano, Israel e Irã e ao papel dos Houthis no Iêmen.
O analista disse que a guerra já dura mais de 1000 dias e que o conflito ainda está em uma etapa inicial. “É o conflito mais longo da história”, declarou. Ele contou que visitou o Kibutz Nir Oz dois dias depois do massacre e que começou a escrever seu livro O Enigma de Israel: uma história do Estado Judaico como uma forma de lidar com o impacto dos acontecimentos.
Irã, Estados Unidos e Cisjordânia
Na avaliação de Cymerman, a relação entre Estados Unidos e Israel continua estratégica, mas os países divergem sobre prioridades. Israel quer que Donald Trump trate imediatamente da questão nuclear iraniana, enquanto os Estados Unidos preferem esperar.
Ele afirmou que o Estreito de Ormuz é relevante para a economia mundial e citou a passagem de 18 milhões de barris de petróleo nos últimos dias. Também mencionou a possibilidade de o petróleo saudita ser transportado por oleodutos até Israel e seguir para a Europa pelo porto de Ashkelon.
Sobre o programa nuclear iraniano, Cymerman disse que Teerã tem 450 kg de urânio enriquecido enterrado. Segundo ele, esse material poderia permitir a fabricação de entre 5 e 11 bombas atômicas.
Na Cisjordânia, o analista alertou para o risco de uma terceira intifada. Ele afirmou que centenas de jovens estão incendiando vilarejos palestinos e classificou os atos como ilegais e terroristas. Esses jovens, segundo Cymerman, são uma minoria entre os quase 500 mil colonos que vivem na região, mas podem dificultar futuras negociações para a criação de um Estado palestino.








