A polarização política crescente dificulta uma resposta comum entre democratas e republicanos para conter o endividamento dos Estados Unidos, na avaliação de Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Para ele, esse ambiente diferencia a atual preocupação fiscal de episódios anteriores envolvendo dívida e déficits.
Em um artigo elaborado para a conferência de Jackson Hole do Fed de Kansas City, em 2023, Eichengreen e um coautor analisaram países que conseguiram controlar níveis elevados e crescentes de endividamento. O estudo identificou dois fatores associados a esse resultado: crescimento econômico forte e baixa polarização política.
Confiança no dólar
Eichengreen afirma que a parcela dos títulos do Tesouro americano mantidos no exterior caiu de forma gradual e contínua ao longo da última década. Embora a sustentabilidade da dívida tenha entrado mais recentemente no centro das preocupações, ele atribui a perda de confiança principalmente a fatores políticos. A situação fiscal ainda pode exercer influência daqui para frente.
O professor relaciona o status de porto seguro dos Estados Unidos e do dólar à estabilidade e à liquidez dos ativos financeiros, mas destaca também o Estado de Direito, os mecanismos de freios e contrapesos ao Poder Executivo, o controle da corrupção e a confiabilidade das alianças geopolíticas.
“São esses fatores políticos que estão enfraquecendo o status de porto seguro dos EUA e do dólar”, disse.
Não há, segundo Eichengreen, outro país que ofereça atualmente uma alternativa confiável. Ainda assim, a ausência de substituto não impede que a confiança na moeda americana seja perdida.
Impactos possíveis
Caso os Estados Unidos deixem de exercer esse papel na economia global, os mercados financeiros ficariam mais voláteis, especialmente os de câmbio. O crédito para transações internacionais se tornaria mais caro e mais difícil de obter, enquanto a globalização, como é conhecida, ficaria em risco.
O professor também avalia que faz sentido outros países, incluindo o Brasil, diversificarem suas exportações diante da incerteza provocada pelas tarifas de Trump. Na visão dele, esse movimento encareceria a produção e o consumo nos Estados Unidos, com efeitos negativos para a economia do país.
Eichengreen considera possível uma recuperação parcial da credibilidade internacional caso os americanos elejam um presidente normal e estável em 2028. Ele ressalta, porém, que a percepção sobre a fragilidade das instituições criadas para conter um presidente transgressor não será facilmente revertida.








