A elevação dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos tornou mais caro o financiamento da dívida americana e passou a pressionar também economias de outros países. O movimento ocorre enquanto bancos centrais e fundos de pensão reduzem sua exposição a ativos dos EUA, em sinais de cautela com a trajetória fiscal e política do país.
Dívida em alta e juros maiores
No mês passado, a dívida dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões, o maior nível já registrado. O montante equivale a cerca de 120% do PIB. Desse total, US$ 20 trilhões foram acumulados entre 2017 e 2026, período em que a dívida americana dobrou.
“Tem um problema fiscal nos Estados Unidos. E tem poucas chances de o país resolver esse problema no curto prazo”, afirma Luis Otávio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners.
O governo de Donald Trump também aprovou o “One Big Beautiful Bill”, medida que pode elevar a dívida dos EUA em mais de US$ 4 trilhões ao longo da próxima década. Na semana passada, Trump ofereceu um cheque de US$ 5 mil para cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste a maioria na Câmara e no Senado nas eleições de meio de mandato, em novembro. O custo estimado da proposta supera US$ 1,3 trilhão.
Com o aumento do risco percebido, os investidores passaram a exigir retornos maiores para comprar títulos americanos. O rendimento do papel de 10 anos está próximo de 5%. O título de 30 anos alcançou 5,37%, maior patamar em 20 anos.
Reservas e fundos reduzem exposição
Os bancos centrais da França e da Holanda retiraram reservas de ouro mantidas nos Estados Unidos. O Norges Bank Investment Management, da Noruega, informou que pretende diminuir sua posição em títulos americanos. O fundo é descrito como o maior fundo soberano do mundo.
As decisões ocorrem em um ambiente de maior preocupação com o endividamento público global, ampliada desde a pandemia de covid-19, quando vários países aumentaram seus gastos para enfrentar a crise sanitária. No caso americano, as medidas recentes do governo Trump reforçaram a incerteza sobre a evolução das contas públicas.
A avaliação de Armando Castelar, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é que a alta do déficit leva o governo a emitir mais títulos, elevando os juros e a despesa financeira. “O que era risco zero, agora, passou a ser algum risco”, diz.
Economia ainda mantém fatores de sustentação
A perda gradual da percepção de segurança não significa que os Estados Unidos estejam prestes a entrar em uma crise. O país continua sendo a maior economia do mundo, o dólar permanece como moeda de reserva internacional e os títulos do Tesouro seguem entre os ativos procurados pelos investidores.
Os investimentos em inteligência artificial são apontados como sinal de resiliência, e as projeções indicam crescimento de 2% da economia americana neste ano. Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management, afirma que a liquidez continua abundante, as margens corporativas estão nos níveis mais altos do ciclo e os balanços das famílias americanas estão nos níveis mais saudáveis em décadas.
Ainda assim, a inflação acima da meta de 2% pode levar o Federal Reserve, o banco central dos EUA, a elevar novamente os juros neste ano. Uma política monetária mais restritiva aumentaria o custo de financiamento da dívida e poderia ampliar a pressão sobre as contas públicas.
Tensões políticas ampliam a cautela
Além do quadro fiscal, as decisões de Trump na política comercial e nas relações internacionais aumentaram a insegurança. O presidente publicou neste mês um mapa em sua rede social no qual Estados Unidos, México, Canadá, Cuba, Groenlândia e Islândia apareciam cobertos pela bandeira americana.
Para Castelar, a questão da Groenlândia afetou a relação dos Estados Unidos com a Europa e a União Europeia. O professor avalia que esse tipo de episódio contribui para um ambiente político mais complexo.
O aumento dos rendimentos dos títulos americanos também interfere nas condições de financiamento de outros países. No Brasil, a dívida bruta chegou a 82,5% em julho, no último dado divulgado. Embora o percentual seja inferior ao dos Estados Unidos, é considerado elevado para uma economia emergente.
A alta dos juros americanos reduz o espaço para cortes da taxa brasileira. Em 2016, o país podia alcançar juros entre 5% e 6%; agora, a estimativa apresentada por Leal aponta um piso entre 7% e 8%.








