A ofensiva das forças do governo do Iêmen contra os houthis ampliou os combates em áreas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb e provocou o deslocamento de mais de 184 mil pessoas desde o início de agosto, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). O movimento houthi, apoiado pelo Irã, reagiu com ataques de mísseis e drones contra alvos na Arábia Saudita.
A disputa envolve uma passagem marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por essa rota, ao Oceano Índico. Os houthis assumiram, em setembro, o controle de áreas estratégicas no entorno do estreito. Desde então, as operações se intensificaram na costa do Mar Vermelho e em outras frentes do território iemenita.
O exército iemenita informou na segunda-feira (5) que avançou pela costa em direção ao norte, rumo a Mocha. Também anunciou uma operação contra Sanaa, cidade controlada pelos houthis e considerada o centro político do movimento. Os houthis negaram os avanços divulgados pelo governo e afirmaram ter tomado posições nos arredores de Taiz, a aproximadamente 80 quilômetros do litoral do Mar Vermelho. Não houve confirmação independente das versões sobre o controle das áreas.
Ataques atingem território saudita
O movimento houthi reivindicou ataques contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, bases militares e instalações da Aramco, incluindo a refinaria de Rabigh. Autoridades sauditas confirmaram danos nos aeroportos de Jizan e Najran, mas não validaram todos os alvos mencionados pelo grupo.
Também foram divulgados relatos de um incêndio em uma instalação da Aramco em Jeddah após um suposto ataque de longo alcance. Vídeos publicados na internet mostram chamas e uma coluna de fumaça escura, mas as imagens não foram verificadas.
A embaixada britânica na Arábia Saudita recomendou que seus cidadãos acompanhem os alertas oficiais e sigam as orientações das autoridades locais. A representação afirmou que o país permanece sujeito a ataques de mísseis e drones contra cidades, aeroportos, instalações militares e estruturas de energia.
Civis e deslocamentos
Pelo menos seis civis morreram e quatro ficaram feridos em ataques atribuídos ao Ansar Allah, nome também usado para identificar o movimento houthi, no sul da província de Taiz. Os números foram divulgados pelo Ministério do Interior iemenita sediado em Áden.
A OIM informou que a maior parte das mais de 184 mil pessoas que deixaram suas casas foi deslocada a partir do início de setembro. “Cada vez mais pessoas são lançadas em um ciclo terrível de deslocamento”, afirmou Amy Pope, diretora-geral da organização.
As forças governamentais divulgaram vídeos que apresentaram como registros de ações em Marib e Taiz. De acordo com o exército, as imagens mostram combates na área montanhosa de Jabal Habashi, ataques de drones contra posições houthis e artilharia contra um veículo militar no sul de Marib. Os resultados atribuídos às operações não foram confirmados de forma independente.
Participação estrangeira
Arábia Saudita, Turquia e Paquistão concordaram em mobilizar forças no âmbito do Acordo Conjunto de Defesa de Meca, conforme anunciado pela coalizão. O grupo também informou o uso de 100 aviões de guerra em apoio à ofensiva do governo iemenita.
A professora assistente da Universidade Batman, Dünya Başol, avaliou que a proposta ainda está “em suspenso”. Segundo ela, o acordo não foi ratificado, não tem uma estrutura conjunta de comando e não define com precisão a diferença entre defesa coletiva, dissuasão, contra-ataques e ações ofensivas.
Başol afirmou que a Turquia poderia oferecer à Arábia Saudita equipamentos de combate a drones, sistemas de defesa aérea e recursos de inteligência, vigilância e reconhecimento por meio de acordos bilaterais, antes de um possível envio de tropas. Para ela, militares e equipamentos turcos posicionados na Arábia Saudita ou no Iêmen poderiam virar alvos dos houthis.
O pesquisador saudita Salman al-Ansari apresentou uma avaliação diferente. Ele disse que os houthis não teriam alternativa além da rendição diante da pressão militar e descreveu o pacto de Meca como essencialmente defensivo, voltado ao compartilhamento de informações e à proteção da Arábia Saudita. Na avaliação dele, uma eventual presença turca e paquistanesa teria principalmente função de dissuasão.
Al-Ansari também negou que Riad tenha pedido uma intervenção direta dos Estados Unidos. Segundo ele, o apoio solicitado a Washington envolve inteligência e ajuda na escolha de alvos.
O porta-voz houthi Mohammed al-Bukhaiti afirmou que o grupo possui armas e estoques suficientes para diferentes tipos de conflito. “O Iêmen tem suprimentos suficientes para continuar lutando para sempre”, declarou. Ele atribuiu essa capacidade à produção própria e à adaptação dos armamentos para enfrentar as defesas sauditas.
A importância de Bab el-Mandeb aumentou em meio às perturbações no Estreito de Ormuz associadas à guerra entre Estados Unidos e Irã. As duas passagens são estratégicas para a navegação e o transporte de energia na região.
A atual fase do conflito remonta à tomada de Sanaa pelos houthis em 2014 e à posterior intervenção militar liderada pela Arábia Saudita. Os combates haviam diminuído após o cessar-fogo de 2022, antes da nova ofensiva e dos ataques contra o território saudita.








