Mais de 100 mil pessoas deixaram suas casas no Iêmen desde o início da ofensiva entre forças da Arábia Saudita e rebeldes houthis apoiados pelo Irã. A escalada também levou famílias a atravessar o Mar Vermelho em pequenas embarcações e aumentou a pressão sobre rotas usadas no transporte internacional de petróleo e gás.
Novos ataques foram registrados nesta quinta-feira (17) em áreas próximas à fronteira do Iêmen. Emissoras controladas pelos houthis afirmaram que a aviação saudita bombardeou a província de Hajjah, na costa do Mar Vermelho e perto do território saudita. Também teriam sido atingidos pontos nos arredores de Taiz, no interior do país.
A Defesa Civil da Arábia Saudita informou que um cidadão iemenita residente no país morreu após ser atingido por destroços de um drone interceptado sobre Taif, no oeste saudita. Essa foi a primeira morte confirmada por Riad desde a retomada da intensificação dos ataques houthis, na semana passada. As autoridades sauditas haviam contabilizado mais de 80 feridos em episódios anteriores.
Os houthis afirmam que centenas de ataques aéreos foram feitos pela Força Aérea da Arábia Saudita nos últimos dias. Na quarta-feira (16), o grupo declarou ter abatido um caça saudita F-15. O líder houthi Abdul Malik al-Houthi condicionou o fim dos combates à suspensão das operações militares e das restrições impostas ao território iemenita.
Deslocamento pelo Mar Vermelho
A Organização Internacional para as Migrações calcula que mais de 100 mil iemenitas tenham sido obrigados a abandonar suas casas. A maioria continua deslocada dentro do próprio Iêmen, enquanto outros civis atravessaram o estreito de Bab el-Mandeb em direção ao Djibuti, na costa africana.
Bab el-Mandeb liga o Mar Vermelho ao golfo de Áden e é considerado um ponto sensível para o comércio internacional. O avanço dos houthis permitiu ao grupo controlar toda a costa iemenita do Mar Vermelho desde a semana passada, ampliando a pressão sobre a passagem marítima.
Entre os refugiados está Wahida Omer, de 50 anos. Ela deixou a aldeia de Dhubab depois do avanço houthi e chegou ao Djibuti em uma pequena embarcação. O marido ficou para trás, sem que ela soubesse se havia morrido, sobrevivido ou sido capturado. “O mar estava assustador, difícil”, relatou Wahida em registro feito pela Organização Internacional para as Migrações. Segundo ela, os passageiros choraram durante a travessia e chegaram sem alimentos.
Ormuz e os preços da energia
A pressão sobre Bab el-Mandeb ocorre enquanto o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece limitado. A Marinha da Guarda Revolucionária do Irã informou que um petroleiro com bandeira do Togo pegou fogo após ser atingido ao tentar fazer o que Teerã classificou como uma passagem ilegal. A embarcação interrompeu a viagem depois do incêndio.
Antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo passava por Ormuz, entre o Irã e a península Arábica. O governo iraniano afirma que o estreito está fechado e continuará nessa condição até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio aos portos do país. Teerã também busca um acordo com outros Estados do Golfo para cobrar tarifas de embarcações que usem a passagem.
A Marinha dos Estados Unidos tenta conduzir navios pelo estreito enquanto mantém o bloqueio aos portos iranianos. Com as restrições em Ormuz e a expansão dos combates no Iêmen e na Arábia Saudita, a alternativa pelo Mar Vermelho para o escoamento das exportações de energia do Golfo também passou a ser pressionada.
Os preços internacionais do petróleo recuaram ligeiramente nesta quinta-feira, mas permaneceram acima de US$ 100 por barril, depois de atingirem os maiores níveis desde maio. Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel no varejo chegou a um recorde, pouco abaixo de US$ 6,40 por galão.
Trump avalia novos ataques
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse estar perto de decidir se retomará ataques de grande escala contra o Irã. “Tenho uma grande decisão pela frente. Quero entrar e aniquilá-los ou não? É uma grande decisão. Qualquer coisa pode acontecer comigo”, afirmou.
Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro. Desde então, a alta dos combustíveis tornou-se um problema político para o governo Trump. Washington e Teerã não negociam o fim da guerra desde o fracasso, poucas semanas depois, de um acordo provisório alcançado em junho.
Trump também recusou pedidos da Arábia Saudita por apoio militar norte-americano contra os houthis. O grupo havia firmado um cessar-fogo com os Estados Unidos no ano passado, após dois meses de bombardeios realizados por Washington.
A guerra deverá ser discutida na Assembleia Geral das Nações Unidas na próxima semana. O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que uma delegação iraniana poderá participar dos encontros em Nova York.









