Celso Lafer reúne em “Mestres e Referências” ensaios e textos curtos produzidos ao longo de décadas. O livro é dividido em duas partes: a primeira concentra análises mais extensas; a segunda traz escritos breves, alguns deles publicados anteriormente em jornal.
A seleção levou aproximadamente um ano e envolveu a escolha dos textos que entrariam no volume. Para Lafer, a obra também funciona como um registro de reconhecimento a quem participou de sua formação intelectual. Entre os autores abordados estão Norberto Bobbio, Miguel Reale, Antonio Candido, Rubens Ricupero e Hannah Arendt.
Os ensaios mais longos foram explicados por Lafer a partir de uma lembrança de Antonio Candido, seu professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia da USP. Candido mencionava Nhô Roque Lameu, personagem de “Os Parceiros do Rio Bonito”, para falar sobre a necessidade de cozinhar frango em muita água. A imagem serve ao autor para diferenciar os textos de maior fôlego dos recortes mais curtos.
Democracia e controle do destino
O texto de abertura apresenta uma conferência realizada em 2020, em Lisboa, sobre três interpretações do Brasil: as de Antonio Candido, Rubens Ricupero e Helio Jaguaribe. Lafer destaca a contribuição de Jaguaribe para a ideia de que o fortalecimento da democracia, associado à liberdade e à igualdade, poderia ampliar o controle da sociedade brasileira sobre seu próprio destino.
Questionado sobre o quanto o país controla atualmente esse futuro, Lafer relacionou o tema à disputa eleitoral e a questões como inflação e desigualdade. “Será pelo convívio democrático que nós vamos poder ampliar o controle sobre o nosso próprio destino”, afirmou.
Na avaliação do autor, o Brasil tem recursos para assegurar sua autonomia e sua viabilidade. Esse potencial dependeria tanto das condições internas quanto da capacidade de atuação internacional. Lafer define como “arquitetura imperfeita” o fato de esse potencial ser desenvolvido em alguns períodos e não em outros.
Outro nome central no livro é Fernando Henrique Cardoso. Lafer dedica a ele o ensaio “O intelectual como político”, publicado originalmente em 2010. No texto, afirma que FHC, embora não tenha sido político no sentido mais tradicional associado a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, construiu uma trajetória política bem-sucedida.
Lafer também atribui a FHC a expressão das aspirações relacionadas ao fim do regime militar e à Constituição de 1988, com ênfase na preservação democrática. Para o autor, o ex-presidente elevou o patamar do Brasil nos planos interno e externo.
Ao final, Lafer é questionado sobre o conhecimento e o reconhecimento que alcançou, tema presente em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Ele afirma que a universidade e a vida política lhe deram uma presença que espera ser considerada construtiva e relevante.








