A maioria dos brasileiros demonstra mais raiva do que esperança em relação à política, segundo pesquisa da Fundação João Mangabeira. O levantamento ouviu 2.242 pessoas em uma análise quantitativa e qualitativa, com apoio de 30 especialistas. A fundação é ligada ao PSB, e os resultados foram reunidos no livro O novo perfil eleitoral do Brasil: como pensa e como vota o brasileiro.
Entre os entrevistados, 75,3% consideram a desigualdade um problema grave do país. Ao mesmo tempo, 55,8% ainda acreditam no mérito individual e 75% veem a democracia como o principal modelo político. Já 59,8% defendem um líder forte e mais independente em relação ao Congresso.
A análise dos especialistas descreve um eleitor que interpreta a política a partir de disputas sobre ordem, valores e reconhecimento, em vez de seguir um comportamento automático ou homogêneo. O estudo também aponta ceticismo em relação à política combinado com uma forte demanda pela presença do Estado.
A pesquisa organiza esse perfil em três grupos: jovens que buscam autonomia com ferramentas públicas, mas sem interferência do governo; mulheres chefes de família que procuram suporte em creches, saúde e segurança, sem receber esmolas; e evangélicos que reivindicam reconhecimento para sua fé.
Trabalho e representatividade
A obra organizada por Carlos Siqueira aponta que os brasileiros são aproximados pela exaustão e pelo pragmatismo de sobrevivência, enquanto a polarização afetiva transforma adversários em inimigos. Entre os mais jovens, a frustração também está ligada à percepção de que o diploma deixou de garantir ascensão social.
O emprego com carteira assinada é considerado o melhor tipo de trabalho por 48% dos entrevistados, enquanto 47% discordam. Entre os jovens, a rejeição ao modelo CLT chega a 57%. Para o estudo, esse grupo associa a segurança do emprego formal à estagnação e à submissão hierárquica, enquanto interpreta a precarização como potência e empreendedorismo.
A falta de confiança atinge as instituições. Para 74% dos brasileiros, o Congresso Nacional representa mal o povo. No STF, 52% não confiam na Corte, e apenas 18,2% sentem que o governo federal está presente em seu bairro.
Sobre Lula e Bolsonaro, 55% consideram correta a prisão de Lula, e 57% avaliam da mesma forma a prisão de Bolsonaro. A polarização também faz com que 74,2% evitem conversar sobre política para não provocar brigas.
Apesar da descrença institucional, 74% dizem ter orgulho do povo brasileiro e 50,2% acreditam que o Brasil é o país do futuro. Na segurança pública, 43,4% avaliam que os direitos humanos só protegem bandidos, enquanto 67,4% consideram ineficaz armar as pessoas para reduzir a criminalidade.








