Estudar até a madrugada durante a preparação para o Enem e outros vestibulares pode prejudicar, em vez de melhorar, o desempenho. A redução do sono afeta a retenção do conteúdo, o raciocínio lógico, o controle emocional e a capacidade de avaliar se o estudo está sendo eficiente.
Durante o sono profundo, especialmente na fase de ondas lentas NREM, o cérebro consolida as informações aprendidas ao longo do dia. Nesse processo, os dados passam do hipocampo, que funciona como armazenamento temporário, para o neocórtex, onde são guardados como memória de longo prazo.
“A ideia de que madrugar estudando traz resultados é uma falsa ilusão de produtividade”, explica Christina Coelho, neurologista e professora da Afya Educação Médica São Paulo. Segundo ela, a privação de sono interrompe processos biológicos necessários para transformar o aprendizado recente em memória consolidada.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado no Npj Science of Learning, acompanhou o sono e as notas de estudantes durante um semestre. A pesquisa concluiu que a duração, a qualidade e a regularidade do descanso ao longo das semanas respondem por quase 25% da variação no desempenho acadêmico final.
O trabalho também indicou que a qualidade e a duração do sono na noite anterior à prova não tiveram relação estatística com a nota. Por isso, tentar recuperar na véspera o descanso perdido durante semanas não compensa a falta de regularidade.
A privação de sono também interfere na resposta emocional. Uma pesquisa realizada por Harvard e pela Universidade da Califórnia em Berkeley analisou, por meio de ressonância magnética, o cérebro de pessoas privadas de descanso. O estudo identificou uma desconexão funcional entre o córtex pré-frontal, ligado ao controle racional, e a amígdala, envolvida no processamento do estresse e das emoções.
Sem a modulação do córtex pré-frontal, a amígdala apresentou hiperreatividade 60% maior diante de estímulos estressantes. Para Christina Coelho, esse mecanismo ajuda a explicar episódios de ansiedade, pânico e o chamado “branco” durante provas, inclusive entre estudantes que se prepararam para elas.
O cansaço ainda reduz a capacidade metacognitiva, que é a habilidade de avaliar o próprio estado mental e o rendimento dos estudos. A falsa impressão de produtividade pode fazer o estudante acreditar que está absorvendo conteúdo, embora a eficiência real esteja menor.
Para manter uma rotina mais regular, a recomendação é dormir e acordar em horários semelhantes, inclusive nos fins de semana. Telas e aparelhos eletrônicos devem ser desligados ao menos 1 hora antes de deitar. Também é indicado evitar café, energéticos e termogênicos à tarde e à noite, além de organizar os estudos durante o dia para garantir entre 7 e 9 horas de sono.
“O aprendizado é um processo acumulativo”, afirma a neurologista. A regularidade do descanso ao longo do período de preparação contribui para a fixação do conhecimento, enquanto o sono deve ser tratado como parte da rotina de estudos, e não como tempo perdido.








