Quatro em cada cinco brasileiros com demência não sabem que têm a condição, e o diagnóstico continua sendo um desafio. Especialistas alertam que episódios de confusão e perda de memória nem sempre são sinais de Alzheimer ou de outra demência: em alguns casos, podem ser provocados por crises epilépticas silenciosas.
A relação entre as duas condições ocorre nos dois sentidos. Pessoas com epilepsia têm risco duas a três vezes maior de desenvolver demência. Entre quem tem demência, o risco médio de convulsões também é duas a três vezes maior, segundo Alice Lam, professora associada de neurologia na Harvard Medical School.
Crises que passam despercebidas
As manifestações podem ocorrer durante uma crise ou depois dela, na chamada fase pós-ictal. A pessoa pode ficar olhando para o vazio, não responder a perguntas e apresentar confusão por horas ou dias. Outro sinal descrito pelos especialistas é o esquecimento acelerado a longo prazo: detalhes de um filme podem desaparecer dias depois, e quase toda a lembrança da obra pode ser perdida semanas mais tarde.
As crises nem sempre envolvem movimentos intensos. Elas também podem acontecer durante o sono ou aparecer como episódios de ausência, nos quais a pessoa fica desconectada do ambiente. Por serem discretas, muitas vezes não são investigadas com eletroencefalograma, exame que verifica a atividade elétrica do cérebro.
Jeff Will, hoje com 73 anos, passou por episódios de desorientação, lapsos de memória e comportamentos incomuns por quase três anos. Os testes cognitivos e exames de imagem pareciam normais para sua idade, e ele chegou a ser avaliado por neurologistas, neuropsicólogos e um psiquiatra.
Na Cleveland Clinic, os médicos identificaram que os sintomas eram causados por convulsões epilépticas silenciosas. Em março de 2025, Will foi monitorado durante cinco dias, com eletrodos de EEG e câmeras. Durante a avaliação, teve pelo menos duas crises noturnas: ficou olhando para a frente, fez movimentos de mastigação e não respondeu à equipe.
A clínica prescreveu Keppra, medicamento comum para epilepsia. As crises e os episódios cognitivos pararam depois do início do tratamento. “Ainda tenho aquela perda de memória daquele período, mas não tenho demência”, afirmou Will.
Riscos compartilhados
Cerca de 7 milhões de pessoas nos Estados Unidos têm demência. Outros 10 milhões de norte-americanos com 65 anos ou mais apresentam comprometimento cognitivo leve, que muitas vezes antecede a demência.
Vários especialistas estimam que pelo menos 10% das pessoas com demência ou comprometimento cognitivo leve desenvolvam convulsões ou distúrbios elétricos mais sutis, embora os cálculos variem. Entre idosos com epilepsia de causa não explicada, cerca de 20% a 25% podem desenvolver demência dentro de cinco anos.
As duas condições podem afetar áreas cerebrais ligadas à memória, como o lobo temporal e o hipocampo. Também compartilham fatores de risco, incluindo pressão alta, diabetes e colesterol alto. Segundo os especialistas, a atividade epiléptica pode prejudicar circuitos envolvidos na formação da memória e contribuir para a perda de células nervosas.
A investigação pode ser ainda mais importante porque alguns medicamentos para epilepsia aceleram o declínio cognitivo. Além disso, pessoas com Alzheimer e convulsões podem ter opções de tratamento mais limitadas: ensaios clínicos de medicamentos aprovados recentemente excluíram pacientes com epilepsia por preocupações de segurança.
Especialistas defendem que a possibilidade de epilepsia seja considerada na avaliação de pacientes com comprometimento cognitivo. Anny Reyes, neuropsicóloga da Cleveland Clinic, afirma que, em um cenário ideal, todo paciente com diagnóstico de demência faria um estudo de EEG.








