A medicina não estabelece um ranking científico universal para definir qual é a pior dor que uma pessoa pode sentir. A intensidade é subjetiva e costuma ser avaliada a partir do relato do paciente, com escalas como a visual analógica e a numérica, que vão de zero a dez.
Entre as condições frequentemente associadas a episódios de dor intensa estão a neuralgia do trigêmeo, a neuralgia pós-herpética, a cefaleia em salvas, a fibromialgia e a síndrome dolorosa regional complexa. Especialistas em neurologia, anestesiologia e manejo da dor explicam que essas doenças podem alterar a rotina, o sono, o trabalho e a convivência social.
Neuralgia do trigêmeo
A neuralgia do trigêmeo é uma condição rara que afeta de 4 a 5 pessoas a cada 100 mil. É mais comum em mulheres acima dos 50 anos e provoca dor no rosto. Trata-se de uma dor neuropática, causada por alterações ou danos nos nervos sensitivos responsáveis por levar ao sistema nervoso central estímulos do rosto, dos dentes, da cavidade oral e das meninges.
Na forma clássica, a doença pode surgir do conflito entre um vaso sanguíneo e a raiz do nervo próximo ao tronco cerebral. Em casos crônicos, a mielina, estrutura que funciona como isolamento elétrico das fibras nervosas, pode ser afetada. Malformações arteriovenosas, alterações estruturais e esclerose múltipla estão entre as possíveis causas.
Atividades comuns, como escovar os dentes ou tocar a boca, podem desencadear crises. A analista ambiental Juliana Souza convive com a doença há oito anos. A dor começou no queixo, levou-a ao dentista e depois se espalhou pelo rosto e pela cabeça. “Sinto como se tivesse cortado o meu rosto por dentro, tudo estivesse ferido e jogassem sal”, descreveu.
Cerca de 80% dos pacientes respondem ao tratamento medicamentoso. No caso de Juliana, a qualidade de vida melhorou, mas ela já precisou se afastar do trabalho, da faculdade e de pessoas próximas por não conseguir prever quando teria uma crise.
Neuralgia pós-herpética
A neuralgia pós-herpética é uma dor neuropática que ocorre durante ou depois de um quadro de herpes-zóster, conhecido popularmente como cobreiro. O vírus varicela-zóster permanece no organismo após a catapora e pode voltar a se manifestar quando é reativado.
Entre 10% e 18% dos casos evoluem para essa complicação. O risco aumenta com a idade, e a vacinação contra herpes-zóster pode reduzir a ocorrência da doença. A dor pode ser descrita como queimação, choque ou formigamento e chegar a uma intensidade incapacitante.
O médico intervencionista da dor André Mansano teve a primeira manifestação em 2021. O quadro começou com dormência do lado direito, da região lombar até a abdominal, e evoluiu para uma sensação semelhante à de queimadura solar. Uma infiltração realizada no início controlou o quadro. Atualmente, segundo ele, apenas o estresse agudo piora a dor.
A persistência dos sintomas pode estar relacionada à hipersensibilidade, à destruição ou à alteração no processamento das fibras nervosas na medula e no cérebro.
Cefaleia em salvas
A Organização Mundial da Saúde estima que a cefaleia em salvas afete uma a cada mil pessoas. A frequência é seis vezes maior em homens do que em mulheres. As crises costumam se concentrar em um lado da cabeça e ao redor de um dos olhos, acompanhadas de lacrimejamento, vermelhidão, congestão nasal e inchaço ou queda da pálpebra.
O mecanismo da doença ainda não é totalmente conhecido. Há envolvimento do sistema trigeminovascular, de processos inflamatórios, do hipotálamo e do gânglio esfenopalatino, conjunto ligado aos nervos que passam pela face e pelo nariz.
O cirurgião-dentista Ian Gricolo convive com a condição desde 2021. A primeira fase durou 30 dias, com possibilidade de mais de uma crise por dia. Ele relata que a dor começa de forma aguda e depois se intensifica no fundo do olho. A imprevisibilidade também interfere na rotina. Gricolo está há um ano e cinco meses sem novas crises, o maior período desde o início do quadro.
Fibromialgia
A fibromialgia está relacionada à forma como o sistema nervoso processa e modula os sinais dolorosos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a condição afeta de 2% a 3% dos brasileiros e ocorre com maior frequência em mulheres entre os 30 e 50 anos.
A causa é desconhecida, mas o início pode estar associado a trauma físico, estresse intenso ou infecção grave. Nos pacientes com a doença, o processamento da dor pode ser amplificado, fazendo com que estímulos pequenos provoquem uma experiência mais intensa do que a esperada.
Entre os sintomas estão dores difusas pelo corpo, sono não reparador, fadiga, esquecimento e desatenção. Ansiedade e depressão também podem estar associadas ao quadro.
A doutora em anestesiologia Livia Teixeira, que criou o projeto De Bem Com a Fibro, conta que sente dor desde criança. Por volta dos 19 ou 20 anos, percebeu que a experiência não era comum. Ela compara a sensação à combinação de cansaço, dor no corpo e um quadro febril.
Síndrome dolorosa regional complexa
A síndrome dolorosa regional complexa costuma surgir após lesão ou inflamação dos tecidos, mas a intensidade da dor é muito maior do que a esperada para o estímulo. A doença pode provocar inchaço, vermelhidão, contrações musculares involuntárias e sensibilidade exagerada. A imobilização é um dos principais fatores de risco.
Dados da Cleveland Clinic indicam que, em mais de 90% dos casos, a síndrome resulta de trauma ou lesão nervosa no membro afetado.
A professora aposentada Niara Palma desenvolveu a condição depois de cair em um buraco no asfalto e bater o joelho. A dor se intensificou nos dias seguintes, apesar de a lesão inicialmente não parecer grave. Após três meses em busca de atendimento, um anestesiologista identificou que a perna afetada estava mais fria e com alteração de cor.
A doença se espalhou e passou a afetar os quatro membros. Niara relata dor constante, choques, queimação e sensação de algo sendo fincado. Até o vento de um ventilador ou um toque podem desencadear uma crise. Ela precisou se aposentar, abandonou as aulas de dança do ventre e passa períodos acamada ou sem conseguir sair de casa. Em alguns episódios, necessita de morfina.
A experiência não cabe em um ranking
Para os especialistas, a intensidade da dor deve ser analisada junto com o impacto na vida do paciente. A medicina consegue medir características, intensidade e consequências, mas não definir objetivamente uma pior dor universal.
Em dores persistentes, o sistema nervoso pode mudar a maneira como processa os sinais. Com isso, estímulos menores podem ser interpretados como mais intensos. Também há pacientes que classificam a dor como 10 de 10 de forma permanente, embora nem sempre estejam em um episódio extremo. Essa situação pode exigir atenção para sofrimento, baixa tolerabilidade ou depressão.
A avaliação precisa considerar ainda dimensões psicológicas, sociais, familiares e espirituais. Como resumiu Carlos Marcelo de Barros, “a pior dor do mundo é a dor que o paciente sente e que impacta a vida dele”.








