Um estudo conduzido no Reino Unido associou o consumo de cafés e chás muito quentes a um risco mais de três vezes maior de carcinoma de células escamosas (CCE) de esôfago, em comparação com bebidas mornas. A pesquisa analisou dados de quase 980.000 adultos e foi publicada na terça-feira (8) no International Journal of Cancer.
O CCE é a forma mais comum de câncer de esôfago no mundo. O órgão é um tubo muscular que leva alimentos e bebidas da boca ao estômago.
Como o estudo foi realizado
Os participantes responderam a perguntas sobre a temperatura de preferência das bebidas — muito quentes, quentes ou mornas — e também podiam informar que não consumiam bebidas quentes ou preferiam não responder. Eles indicaram ainda o volume diário ingerido: menos de 6 bebidas quentes por dia ou 6 ou mais bebidas quentes por dia.
Os dados vieram do Million Women Study e do UK Biobank, grupos que reúnem informações de saúde. Durante o acompanhamento, que durou em média 14,2 anos em um grupo e 11,1 anos no outro, foram registrados 2.348 casos de câncer de esôfago.
Pouco menos da metade dos participantes relatou consumir 6 ou mais bebidas quentes por dia. Aproximadamente 15% disseram preferir bebidas muito quentes.
O risco aumentou conforme a temperatura preferida. Entre os participantes que escolhiam bebidas quentes, a probabilidade foi quase duas vezes maior do que entre os que preferiam bebidas mornas. Para quem optava por bebidas muito quentes, o risco foi superior a três vezes.
A quantidade também apareceu associada ao risco. Após o ajuste dos dados pela temperatura, o consumo de 6 ou mais bebidas quentes por dia foi relacionado a um risco 71% maior de CCE de esôfago do que o consumo de menos de 6.
A autora principal, Keren Papier, epidemiologista nutricional sênior da Oxford Population Health, afirmou que o trabalho reforça as evidências sobre a relação entre bebidas quentes e muito quentes e esse tipo de câncer. Segundo ela, a pesquisa também avaliou hábitos comuns no Reino Unido, onde chá e café são consumidos diariamente por grande parte da população.
Temperatura e limitações
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou o consumo de bebidas muito quentes como provavelmente cancerígeno para humanos em 2016. Para a agência, são consideradas muito quentes as bebidas com temperatura superior a 65 °C.
Os pesquisadores observaram que a adição de leite não alterou o risco, desde que a bebida continuasse quente. A hipótese é que líquidos em alta temperatura possam danificar as células que revestem o esôfago e provocar inflamação.
A pesquisa, porém, não mediu diretamente a temperatura das bebidas. As informações foram fornecidas pelos próprios participantes, que podem ter percepções diferentes sobre o calor. Por isso, Muy-Teck Teh, professor de oncologia oral molecular na Queen Mary, University of London, afirmou que os resultados indicam associações fortes, mas não comprovam uma relação de causa e efeito.
O consumo de bebidas muito quentes já havia sido analisado principalmente na América do Sul, na Ásia e no Oriente Médio. O novo estudo concentrou-se em hábitos do Reino Unido. Os pesquisadores estimaram que 14% dos novos casos de CCE de esôfago no país poderiam ser evitados se as pessoas consumissem chá e café em temperaturas mais baixas.
Risco absoluto
Apesar da associação identificada, a chance de diagnóstico continua relativamente baixa. O câncer de esôfago representa 2% dos casos de câncer no Reino Unido, onde o risco de uma pessoa receber esse diagnóstico ao longo da vida é de cerca de 1%, segundo a Cancer Research UK.
No mundo, foram registrados cerca de 604.000 novos casos de câncer de esôfago e aproximadamente 544.000 mortes pela doença em 2020, de acordo com a IARC. A agência projeta que o número global de casos aumentará mais de 50%, chegando a quase um milhão por ano até 2040.
Para Papier, deixar a bebida esfriar antes de consumi-la é uma medida simples. Entre as opções estão esperar alguns instantes, acrescentar leite ou água fria, assoprar ou tomar pequenos goles.
Ian Johnson, fisiologista epitelial e membro emérito do Quadram Institute, recomendou o consumo de bebidas mais amenas, abaixo de 65 °C. Ele não participou do estudo.








