A cooperação policial entre Brasil e Estados Unidos enfrenta novos obstáculos com a retenção de vistos de agentes dos dois países. O Departamento de Estado norte-americano não liberou a entrada de dois policiais federais brasileiros que deveriam trabalhar nos Estados Unidos, enquanto o Brasil bloqueou o visto de um agente norte-americano designado para atuar no país.
Os policiais brasileiros assumiriam funções em Miami e Nova York no mês passado. Eles trabalhariam com o Homeland Security Investigations, órgão de investigação criminal do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, e com outras agências federais em ações contra crimes transnacionais. Os profissionais já tinham sido selecionados e passado por verificações de antecedentes realizadas pelos dois países no início deste ano.
O impasse ocorre em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. As autoridades dos dois países ainda negociam os vistos. O Departamento de Estado afirmou que mantém os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública no processo de análise e que continuará trabalhando com o Brasil em interesses compartilhados.
Recusas e retaliações
O Brasil também reteve o visto do sucessor de um agente norte-americano que atuava em Brasília. A medida foi adotada depois que os Estados Unidos expulsaram, em abril, Marcelo Ivo de Carvalho, acusado pelo governo Trump de conduzir uma “caça às bruxas política” por seu papel na prisão de Alexandre Ramagem, ex-chefe da inteligência brasileira. Em resposta à expulsão, o Brasil revogou as credenciais do agente dos Estados Unidos.
Outra solicitação brasileira foi recusada. Uma equipe de quase uma dezena de servidores da Receita Federal e da aduana pediu, em junho, uma visita a autoridades norte-americanas em Washington para ampliar a cooperação contra lavagem de dinheiro e contrabando de armas. O pedido foi negado sob a justificativa de que a agenda estava cheia até novembro.
A cooperação técnica, porém, continua em algumas áreas. Um sistema de compartilhamento de inteligência implementado neste ano permite que agentes aduaneiros dos dois países comuniquem suspeitas sobre cargas em contêineres. Segundo uma autoridade brasileira, esse mecanismo ajudou a interceptar carregamentos ilícitos, incluindo armas.
Crime organizado e relação política
Brasil e Estados Unidos têm histórico de investigações conjuntas contra fraude, tráfico, corrupção internacional, pirataria e tráfico de pessoas. A agência norte-americana de Imigração e Alfândega mantém um representante no Brasil há mais de duas décadas.
Especialistas afirmam que a cooperação se tornou mais necessária porque as facções latino-americanas ampliaram recursos e alcance. “Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras”, disse Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal.
O Brasil é descrito como uma rota de trânsito de cocaína para a Europa, a África e outras regiões. Grupos brasileiros também estabeleceram alianças com organizações criminosas mexicanas e colombianas. Além disso, especialistas afirmam que criminosos usam o sistema bancário norte-americano para lavar dinheiro e obtêm armas ilegais enviadas de estados dos Estados Unidos com leis mais permissivas.
Lula defendeu, em reuniões e telefonemas ao longo do último ano, uma atuação conjunta contra armas e recursos financeiros das facções. Em encontro na Casa Branca, em maio, apresentou uma proposta ao governo Trump, que não respondeu, segundo uma autoridade brasileira.
No mesmo mês, os Estados Unidos avançaram para classificar as duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas. A medida foi seguida pela aplicação de sanções a pessoas investigadas em sigilo pela polícia brasileira, o que revelou vínculos com as organizações e levou à antecipação das prisões, segundo as informações disponíveis.
Washington também busca fortalecer a cooperação com governos conservadores por meio do Shield of the Americas, aliança de segurança contra o narcotráfico que não inclui o Brasil. Equador e Colômbia concordaram em realizar operações militares conjuntas com os Estados Unidos em seus territórios. No mês passado, o Brasil não foi convidado para uma reunião de autoridades de segurança da América Latina e do Caribe realizada na sede das Nações Unidas.
Para Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, a política de segurança norte-americana em relação ao Brasil se misturou à política. O ex-embaixador Jimmy Story avaliou que a pressão tende a afastar os países: “Queremos ter o Brasil mais próximo dos Estados Unidos, não mais distante”.








