HAVANA — Mais de 7 mil contêineres destinados a Cuba estão retidos em portos do Caribe, segundo o embaixador cubano na ONU em Genebra, Rodolfo Benítez Verson. As cargas incluem alimentos, medicamentos, painéis solares, bolsas de colostomia e suprimentos comprados por agências das Nações Unidas.
A retenção aumentou depois que as empresas de transporte marítimo Hapag-Lloyd, da Alemanha, e CMA CGM, da França, suspenderam ou limitaram entregas para evitar as sanções impostas pelos Estados Unidos. As duas companhias transportavam juntas pelo menos metade das importações cubanas, incluindo a maior parte dos alimentos.
Cargas médicas e ajuda humanitária
Entre os contêineres parados estão 30 unidades da operação humanitária da ONU, com kits para tratamento de água, antibióticos, contraceptivos e testes de gravidez. Também há peças de reposição para uma usina elétrica desativada no Uruguai, doadas pela empresa estatal de energia do país, que não conseguiram ser enviadas por falta de companhia marítima disposta a fazer o transporte.
A médica cubana Valia Rodríguez, que vive no Reino Unido e dirige a organização Aid for the Caribbean, informou que um contêiner com kits de reanimação, bolsas de colostomia e tubos intravenosos, avaliados em mais de US$ 500 mil, chegou ao Porto de Mariel em 4 de junho. A carga havia saído da Irlanda do Norte em abril, e o desembarque foi interrompido após a entrada em vigor das novas sanções.
O contêiner acabou enviado ao Panamá, onde a organização gastou mais de US$ 6 mil em armazenamento. “Neste momento, as pessoas em Cuba estão usando sacolas de compras, pois não há bolsas de colostomia disponíveis”, afirmou Valia.
A Organização Mundial da Saúde cancelou entregas planejadas de medicamentos contra o câncer. Milhares de frascos de doxorrubicina doados não chegaram à ilha depois que companhias aéreas deixaram de operar voos para Cuba. Medicamentos contra a tuberculose, comprados de uma farmacêutica indiana e enviados pela DHL, foram devolvidos ao fabricante em maio.
Francisco Pichón, coordenador da ONU em Cuba e responsável pela resposta humanitária, disse que as empresas estão evitando riscos mesmo quando as sanções não proíbem expressamente o envio de alimentos e suprimentos médicos. “Estamos diante de algo muito real: um fenômeno chamado ‘excesso de conformidade’ (overcompliance)”, afirmou.
Alimentos e energia
O governo dos Estados Unidos impôs um bloqueio de petróleo à ilha em janeiro. Em maio, ampliou as restrições ao informar que empresas estrangeiras que trabalhassem com determinadas entidades estatais cubanas poderiam ter ativos congelados e ser impedidas de fazer negócios com empresas e bancos americanos.
O Departamento de Estado afirmou que as medidas atingem o governo cubano e seus financiadores, incluindo a GAESA, conglomerado militar que controla parte da economia da ilha. O secretário de Estado Marco Rubio atribuiu a crise humanitária ao modelo econômico adotado pelo governo cubano.
O governo de Cuba registrou pelo menos cinco apagões nacionais neste ano. A falta de combustível, alimentos e medicamentos se soma ao colapso do sistema de saúde. O país informou que 100 mil pacientes aguardavam cirurgias, entre eles 12 mil crianças. O People’s Forum também citou 100 mil pessoas na fila e informou que mantém três contêineres retidos com cerca de 1.000 painéis solares, avaliados em mais de US$ 750 mil, destinados a unidades de terapia intensiva.
As exportações do Brasil e do México para Cuba caíram mais de 90% em julho, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Gordon Wilmsmeier, professor da Universidad de los Andes, afirmou que até dois terços da capacidade total de transporte de contêineres desapareceram.
O México usou navios da Marinha para entregar milhares de toneladas de arroz e feijão, além de leite em pó. A Força Aérea Brasileira transportou remessas de leite em pó. Celso Amorim disse que o Brasil gostaria de enviar combustível e mais ajuda, mas teme a reação de Washington.
Em Havana, o preço do frango congelado dobrou nos últimos meses. Uma caixa com 30 ovos passou a custar US$ 11, enquanto os preços dos alimentos subiram 60% entre janeiro e agosto, segundo o economista Omar Everleny Pérez Villanueva. A organização Quisicuaba aguardava cinco contêineres de alimentos e informou ter reduzido as quantidades de frango e ovos distribuídas em sua cozinha comunitária.








