Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Propostas de segurança inspiradas em Bukele esbarram na realidade brasileira

Candidatos defendem mais prisões, presídios e ações contra facções, mas Constituição e estrutura do crime organizado impõem limites.

Propostas de segurança inspiradas em Bukele esbarram na realidade brasileira
Foto: Arte/Metrópoles - Gui Prímola

A experiência de Nayib Bukele em El Salvador passou a orientar propostas de segurança de Flávio Bolsonaro, Renan Santos e Romeu Zema para as eleições brasileiras de 2026. Os planos incluem endurecimento penal, expansão do sistema prisional, retomada de áreas dominadas por facções e uso ampliado de forças de segurança.

O modelo, porém, não poderia ser transplantado integralmente para o Brasil. A Constituição de 1988 protege o devido processo legal, a ampla defesa, o contraditório e o habeas corpus — garantias que entram em conflito com medidas adotadas durante o estado de exceção salvadorenho.

O que ocorreu em El Salvador

Bukele chegou à Presidência de El Salvador em 2019 e transformou a segurança pública em uma das principais bandeiras de seu governo. Depois de uma escalada de violência em 2022, decretou um regime de exceção que ampliou os poderes de prisão e resultou em encarceramento em massa.

A política foi associada a uma forte queda dos homicídios, mas também recebeu denúncias de tortura, detenções arbitrárias e outras violações de direitos humanos. O CECOT, megapresídio de segurança máxima, tornou-se o principal símbolo da estratégia.

Para Jenifer Moraes, professora de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, o modelo salvadorenho é incompatível com a estrutura constitucional brasileira. Ela também aponta obstáculos práticos relacionados às características das organizações criminosas que atuam no país.

Três propostas para o sistema prisional

Flávio Bolsonaro, do PL, faz uma referência direta ao modelo de El Salvador. Depois de se reunir com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, defendeu o aumento da população carcerária.

O plano prevê cinco presídios federais de segurança máxima inspirados no modelo salvadorenho. Somados aos cinco presídios federais já existentes, eles formariam o Complexo Federal de Segurança Máxima, chamado de TREVA.

A proposta também prevê meio milhão de novas vagas no sistema prisional brasileiro em quatro anos. O objetivo declarado é retirar líderes de organizações criminosas de circulação e impedir que continuem comandando facções de dentro das penitenciárias.

O programa inclui bloqueio de ativos, combate à lavagem de dinheiro, redução da maioridade penal, penas mais duras, monitoramento eletrônico de agressores de mulheres, reforço das forças de segurança nas fronteiras e instalação de mais de 1 milhão de câmeras no país.

Renan Santos, do Missão, usa em seu programa uma formulação próxima à ideia de guerra contra organizações criminosas. O plano cria a previsão de um regime jurídico específico para integrantes de grupos classificados como criminosos, com restrição de direitos, tribunais especializados e confisco patrimonial mais rigoroso.

Também estão previstas operações de retomada territorial, emprego das Forças Armadas em determinadas circunstâncias e construção de superpresídios de segurança máxima inspirados no CECOT. Reconhecimento facial, drones, integração de bancos de dados e inteligência para identificar redes criminosas completam a proposta.

O programa tenta estabelecer um arcabouço jurídico próprio para as medidas no Brasil, em vez de propor a reprodução direta do estado de exceção adotado por Bukele.

Diferenças entre facções brasileiras e gangues salvadorenhas

Romeu Zema, do Novo, defende presídios de segurança máxima em regiões remotas e isoladas para integrantes de facções. O programa também classifica organizações criminosas como terroristas e prevê a atuação integrada das Forças Armadas, das polícias estaduais e da Polícia Federal na recuperação de territórios controlados pelo crime organizado.

Na legislação penal, Zema propõe reduzir a maioridade para 16 anos, permitir a responsabilização de pessoas ainda mais jovens em situações específicas e alterar o cumprimento das penas.

As organizações que atuam nos dois países, entretanto, têm estruturas diferentes. Em El Salvador, MS-13 e Barrio 18 consolidaram seu poder em estruturas territoriais menores, com forte presença comunitária e atuação em extorsão e controle local.

No Brasil, PCC e Comando Vermelho têm estruturas complexas, atuação que ultrapassa o território nacional e participação em mercados transnacionais de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Outra diferença está na origem das organizações. Enquanto o governo Bukele usou as prisões para neutralizar gangues, parte das principais facções brasileiras nasceu dentro do próprio sistema carcerário. PCC e Comando Vermelho surgiram em presídios e transformaram as penitenciárias em espaços de articulação e recrutamento.

Para Jenifer Moraes, ampliar o encarceramento sem capacidade estatal de controle pode fortalecer as organizações que as propostas pretendem combater. “O presídio em si, ele também gera violência”, afirmou.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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