BERLIM — A ascensão da extrema direita na Alemanha e as marcas de guerras e extremismos na capital alemã formam o contexto para a exposição itinerante da 36ª Bienal de São Paulo. A mostra ocupa a Haus der Kulturen der Welt, a Casa das Culturas do Mundo, e leva à cidade obras e debates sobre humanidade, coexistência, racismo, crise ecológica e direitos humanos.
A exposição foi aberta para convidados na sexta, 11, e começou a receber o público neste fim de semana. Ela permanece em cartaz até 6 de dezembro. É a primeira vez que uma itinerância da Bienal chega a Berlim e a 12ª cidade contemplada pelo projeto neste ano.
Arte em uma cidade marcada pela história
A apresentação ocorre durante uma agenda cultural que também incluiu a Semana de Arte de Berlim, com atividades em mais de 100 galerias, museus e instituições. No mesmo período, moradores e visitantes puderam conhecer o complexo olímpico dos Jogos de 1936, associado à propaganda nazista, e a antiga sede da Stasi, centro da vigilância na Alemanha Oriental.
Uma manifestação com cerca de 100 organizações percorreu a cidade a uma semana das eleições parlamentares locais. Os participantes defenderam a democracia e a justiça social, combateram o racismo e protestaram contra a construção de uma rodovia que destruirá uma floresta local. O ato ocorreu quando a AfD, partido de extrema direita, ganhava força no país e começava a vencer eleições estaduais, como ocorreu no domingo, 6.
Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador-chefe da Bienal e diretor da Haus der Kulturen der Welt, afirmou que as perguntas apresentadas pela curadoria e pelos artistas dizem respeito ao momento atual. Para ele, a mostra também oferece um espaço de respiro diante das dificuldades do mundo.
Na abertura, o curador citou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948, e seu artigo 1º, que afirma que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Ao tratar da ascensão da extrema direita, disse que a erosão desses direitos já está em andamento. Em seguida, defendeu a união para reinventar a ideia de humanidade quando ela não responder mais às necessidades do presente.
Adaptação reúne 30 artistas
A exposição em Berlim foi reduzida em relação à edição apresentada em São Paulo. A Bienal expôs obras de 125 artistas e recebeu mais de 780 mil pessoas entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, no pavilhão de cerca de 30 mil m2 projetado por Oscar Niemeyer no Parque do Ibirapuera. Na Alemanha, foram selecionados 30 artistas.
Alya Sebti, uma das cocuradoras da Bienal de São Paulo e curadora da mostra em Berlim, disse que um dos critérios foi incluir artistas que escolheram a cidade alemã como lar. O projeto também aproxima os dois edifícios: tanto o pavilhão brasileiro quanto a sede da HKW foram construídos nos anos 1950 e têm características modernistas. Os dois ficam em parques e próximos de rios: o Tiergarten e o Spree, em Berlim, e o Parque do Ibirapuera e o Córrego do Sapateiro, em São Paulo.
A curadoria organiza a mostra em torno da coexistência com plantas, animais e outras formas humanas e mais-que-humanas, além da crise ecológica, do sistema de extração e industrialização e da escuta. O espaço menor alterou a relação entre as obras e deu maior destaque a trabalhos como as fotografias de Wolfgang Tillmans e a videoinstalação Watching a Minute for a Minute.
Também integram a exposição obras de Rebeca Carapiá, Lídia Lisboa, Theo Eshetu, Alberto Pitta, Magdalena Campos-Pons, Julianknxx e Maria Auxiliadora (1935-1974). A apresentação inclui ainda uma nova obra de Juliana dos Santos e um mural de Tanka Fonta, artista camaronês radicado em Berlim. A HKW encomendou o trabalho para a fachada do prédio; no interior, há outro mural do artista, comissionado pela instituição em 2023.
Encontros entre artistas e públicos
A mostra reúne trabalhos que nasceram de experiências em diferentes cidades. O fotógrafo Akinbode Akinbiyi, nascido em Oxford e morador de Berlim, apresentou um ensaio produzido depois de uma residência artística na Casa do Povo, onde permaneceu por cerca de sete semanas. As imagens mostram a convivência de vidas culturalmente distintas no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
Durante a abertura, Akinbiyi reencontrou integrantes do coletivo Vilanismo, com quem havia estabelecido contato antes da Bienal. O fotógrafo, de 80 anos, também falou sobre racismo e sobre a possibilidade de pessoas negras ocuparem espaços dos quais são excluídas. Ao se dirigir aos jovens do coletivo, afirmou: “Eles são meus irmãos”.
A exposição também apresenta Ouro Negro é a Gente (2025), filme da brasileira Aline Baiana, de 41 anos. Moradora de Berlim, ela retrata na ilha de Maré, na Baía de Todos-os-Santos, uma comunidade quilombola afetada pelo petróleo e pelo chamado progresso. O trabalho busca aproximar o público da terra e mostrar outras formas de viver e de se relacionar com o mundo.
Itinerância continua até 2026
Até o final de 2026, 15 cidades terão recebido exposições criadas a partir da 36ª Bienal de São Paulo. Ainda estão previstas três aberturas: Belo Horizonte, Vitória e Cidade do México. O projeto existe desde 2011 e passou, neste ano, por Brasília, Goiânia, Santos, Rio de Janeiro e Santiago.
Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, afirmou que as itinerâncias mantêm o trabalho ativo depois dos quatro meses de exposição no pavilhão e permitem diálogos com novos públicos e contextos.








