A conquista de territórios e ilhas próximos ao Estreito de Bab el-Mandeb ampliou o alcance militar dos houthis e expôs limitações da Arábia Saudita no conflito do Iêmen. O avanço também deu ao Irã maior capacidade de influência sobre uma das principais rotas marítimas do comércio mundial.
Os combatentes apoiados por Teerã avançaram pela costa do Mar Vermelho e assumiram posições com vista para o estreito, localizado entre o Iêmen, na Península Arábica, e Djibuti e Eritreia, no litoral africano. A passagem é usada no transporte de petróleo e outras mercadorias entre a Ásia, a Europa e o Mediterrâneo.
Falhas na defesa saudita
A ofensiva foi associada a disputas entre facções iemenitas apoiadas por Riade, à pouca experiência da estrutura de comando liderada pelos sauditas, ao apoio aéreo limitado e a uma avaliação incorreta da capacidade de mobilização dos houthis.
A supervisão da Arábia Saudita havia substituído o comando anteriormente exercido pelos Emirados Árabes Unidos sobre parte das forças contrárias ao grupo. A mudança não evitou a rápida desarticulação dos aliados locais. Um diplomata afirmou que os houthis mobilizaram discretamente cerca de 100 mil combatentes, número superior ao contingente adversário.
O pesquisador Neil Quilliam, do centro de estudos Chatham House, em Londres, classificou o episódio como uma falha dos serviços de inteligência. O analista iemenita Farea Al-Muslimi também disse que Riade não conseguiu antecipar o ataque.
Com a retirada das forças apoiadas pelos sauditas, os houthis capturaram armamentos avançados fornecidos pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos. Fontes regionais avaliam que o material pode ampliar a capacidade operacional do grupo e revelar informações sobre os equipamentos usados pelos adversários.
Busca por apoio no Egito
A velocidade do colapso reduziu as possibilidades de uma reação imediata. Representantes ocidentais disseram que os Estados Unidos e países europeus não estavam preparados para participar de uma operação militar. Washington e seus aliados também não aderiram à coalizão de defesa marítima anunciada pela Arábia Saudita em julho.
Diante da recusa norte-americana em intervir, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman viajou ao Cairo para tentar obter apoio do Egito. A Arábia Saudita busca envolver os egípcios em operações de segurança no Mar Vermelho, lembrando a atuação do Cairo em 2015, quando forças navais e aéreas do país ajudaram a proteger Bab el-Mandeb.
Não houve confirmação imediata de que o governo egípcio aceitará o pedido. O histórico do Egito no Iêmen pode limitar uma nova intervenção: na década de 1960, o país participou de uma guerra prolongada e dispendiosa em território iemenita.
Pressão sobre rotas marítimas
Os houthis podem usar as conquistas para exigir o fim das restrições ao porto de Hodeidah e ao aeroporto de Sanaa, compensações relacionadas à guerra e a redução do apoio saudita ao governo iemenita reconhecido internacionalmente, afirmou o ex-negociador norte-americano Dennis Ross.
A Arábia Saudita enfrenta alternativas de alto risco. A consolidação das posições pode transformar vitórias táticas em influência duradoura, enquanto uma ofensiva de maior escala poderia provocar ataques mais profundos contra o território saudita.
As áreas conquistadas também facilitam a expansão de redes logísticas e rotas de contrabando em direção ao Chifre da África. Além disso, ampliam a capacidade houthi de ameaçar navios no Mar Vermelho e o escoamento de petróleo saudita.
Para o Irã, o avanço fortalece a possibilidade de exercer influência indireta sobre Bab el-Mandeb e sobre o Estreito de Ormuz, passagem entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. A presença de aliados nas proximidades dos dois estreitos aumenta o poder de barganha de Teerã e os riscos para a navegação comercial e os mercados de energia.
Dúvidas sobre a proteção dos EUA
O revés também atingiu a estratégia regional de Mohammed bin Salman, que buscava reduzir tensões por meio de uma reaproximação com o Irã e criar condições mais estáveis para o programa de transformação econômica saudita.
A recusa de Washington em apoiar Riade enfraqueceu seu poder de negociação e alimentou dúvidas sobre a confiabilidade das garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos. Para Al-Muslimi, a dificuldade de reunir novos parceiros está relacionada ao histórico de intervenções estrangeiras fracassadas no Iêmen.
O avanço houthi devolveu impulso à influência iraniana depois de reveses sofridos pelos aliados de Teerã em Gaza, na Síria e no Líbano. A ofensiva também mostrou que o Irã pode ampliar sua pressão regional por meio de grupos armados, ativos energéticos e rotas marítimas.








