O açaí deixou de ser associado apenas à região Norte do Brasil e passou a ocupar espaço no mercado global de alimentos naturais e funcionais. A expansão alcança academias, serviços de delivery e consumidores de diferentes países, mas também aumenta os desafios de produção, logística, sustentabilidade e profissionalização da cadeia.
Rafael Corte, CEO do JAH Açaí, Sorvetes e Picolés, atribui o avanço à combinação entre a busca por alimentos nutritivos e a entrada do produto na rotina dos consumidores. Segundo ele, a associação com esporte e estilo de vida saudável ajudou a levar o açaí para fora do Brasil, inicialmente por meio de surfistas e atletas que chegaram aos Estados Unidos no início dos anos 2000.
A onda global dos superalimentos ampliou esse movimento. O açaí passou a dividir espaço com produtos como quinoa e chia em mercados especializados. O mercado mundial da fruta movimenta bilhões de dólares e cresce em dois dígitos ao ano, conforme a avaliação de Corte.
Do consumo regional ao produto internacional
A expansão começou com a exportação de polpa congelada para os Estados Unidos e o registro do produto nos órgãos regulatórios americanos. A ligação com academias, atletas, jiu-jitsu e surfe reforçou a imagem do açaí como alimento relacionado à performance e à alimentação saudável.
Outro avanço foi a transformação da polpa em produtos industrializados, com marca e padrão de qualidade. O JAH mantém uma parceria de copacking em Portugal para aproximar a produção dos consumidores europeus e garantir abastecimento contínuo às lojas no continente.
A empresa atua em países como Portugal e Alemanha e considera a Europa seu principal foco de expansão internacional. Entre os obstáculos estão as exigências regulatórias e sanitárias, a manutenção da cadeia de frio no transporte marítimo e a adaptação do produto ao paladar de cada mercado.
A logística é estruturada dentro da cadeia de produtos congelados, com operadores homologados e certificados. Transporte e armazenagem ocorrem a temperaturas inferiores a -20°C. O açaí liofilizado também começa a chegar a alguns mercados, embora a adoção ainda seja inicial por causa das diferenças de sabor e textura em relação ao produto fresco. O prazo mínimo de validade informado pela empresa é de 12 meses.
Produção e impacto na Amazônia
A produção brasileira ainda é majoritariamente extrativista e depende do clima, das comunidades ribeirinhas e da cadeia de abastecimento. Dados do IBGE citados por Corte indicam que o país passou de cerca de 145 mil toneladas produzidas em 1987 para quase 2 milhões de toneladas atualmente.
O cultivo em fazendas de açaí também avança e pode contribuir para uma oferta mais padronizada e certificada, especialmente no Norte e em áreas próximas à linha do Equador. Novas tecnologias, segundo o executivo, podem ampliar a produtividade em outras regiões.
No Pará, a expansão do consumo fortalece a economia local e transforma o açaí em fonte de renda para milhares de famílias ribeirinhas e pequenos produtores extrativistas. Para Corte, o aumento da demanda precisa ser acompanhado de preço justo e incentivo ao manejo adequado, de modo a preservar a floresta.
A empresa afirma trabalhar com fornecedores que adotam práticas de sustentabilidade social e ambiental nas áreas produtoras do Norte. Na Ilha do Marajó, mantém parcerias locais para estimular a produção e apoia iniciativas e associações voltadas ao fortalecimento das comunidades, à melhoria do cultivo e da colheita e à educação.
Expansão prevista
A estratégia de crescimento inclui eficiência energética nas fábricas, redução de perdas e uso de embalagens sustentáveis. Corte considera a preservação da floresta e o manejo correto essenciais para a continuidade da cadeia e para a manutenção da renda das comunidades produtoras.
A empresa projeta encerrar o ano com faturamento de R$ 210 milhões e mais de 200 lojas ativas. No exterior, pretende consolidar a presença na Europa, ampliar a operação na Alemanha e avaliar novos países. A primeira unidade no Chile será aberta em outubro, com previsão de mais 4 lojas no país até o final deste ano.
Para avançar no mercado global, Corte defende que o Brasil exporte mais produtos finalizados e conceitos de marca, em vez de concentrar as vendas na polpa como commodity básica. Ele também aponta a necessidade de ampliar o marketing institucional do país para apresentar aos consumidores estrangeiros os modos de consumo e os benefícios nutricionais do açaí.








