SÃO PAULO — O mercado trabalha com a expectativa de que o próximo governo, independentemente de quem vencer a eleição, adotará algum tipo de ajuste fiscal. A avaliação foi apresentada em um painel com Christian Egan, CEO da B3, e os economistas-chefes do Bradesco, Fernando Honorato, e do Itaú, Diogo Guillen, ex-diretor de política econômica do Banco Central.
Uma aposta semelhante foi feita no início do Governo Lula, mas a frustração com o resultado contribuiu para uma Selic de 14%. Para Honorato, as condições atuais são mais favoráveis ao equilíbrio das contas públicas. O economista afirmou que o quadro da dívida piorou, aumentando o incentivo ao ajuste, e que o custo político de não adotar medidas é alto.
A estimativa apresentada por Honorato considera que, com juro real em torno de 7,5%, seria necessário um superávit primário de cerca de 4,5% do PIB para estabilizar a dívida. Se a taxa real recuar para 4%, próxima da média histórica brasileira, o esforço necessário cairia para algo como 1% do PIB.
O mercado atribui uma probabilidade maior de ajuste a um eventual Governo Flávio Bolsonaro, que tem defendido um tesouraço. O painel, porém, não discutiu os programas das duas candidaturas que lideram as pesquisas.
Credibilidade das medidas
Os participantes também destacaram que o efeito do ajuste fiscal dependerá não apenas do tamanho das medidas, mas da confiança em sua execução. Eles lembraram que não houve superávit primário logo após a adoção do teto fiscal em 2016. Ainda assim, a credibilidade das medidas contribuiu para a queda da Selic e a valorização dos ativos de risco.
Na avaliação de Egan, um ajuste fiscal sólido poderia reduzir automaticamente as taxas longas de juro em cerca de 100 basis points. Honorato vê potencial de impacto ainda maior na Bolsa, associado a uma possível expansão da economia.
O PIB brasileiro cresceu, em média, 2,2% nos últimos 46 anos, abaixo da média mundial de 3,3%. Para Honorato, nos períodos em que o país perseguiu responsabilidade fiscal, o crescimento se aproximou da média global. “O rerating das ações poderia ser gigantesco”, afirmou.
Sem uma mudança significativa na área fiscal, a Bolsa permaneceria sem fluxo e descontada, enquanto o câmbio poderia se desvalorizar além do previsto. Guillen e Honorato já projetam alguma depreciação do real nos próximos meses, em razão da expectativa de aumento dos juros nos Estados Unidos. O Itaú prevê o dólar em torno de R$ 5,30; o Bradesco trabalha com intervalo entre R$ 5 e R$ 5,20.
Na abertura do evento, Egan apresentou as prioridades de sua gestão na B3: clientes, tecnologia, pessoas e confiança. Para ele, a tecnologia não deve ser apenas uma função de suporte, mas o núcleo do negócio.









