A advocacia contenciosa exige administrar situações em que o contrato diz uma coisa, mas pretende dizer outra, ou em que um precedente favorável contém um trecho que o adversário pode interpretar melhor. Para Rodrigo Tannuri, essa capacidade de lidar com ambiguidades começa antes da prática profissional e aparece na relação do candidato com a leitura.
Ao receber clientes, ele costuma ouvir a pergunta sobre as chances de vitória, às vezes com pedido de resposta em percentuais. A busca por certezas, afirma, contrasta com a própria ciência, que prospera na incerteza. Nesse cenário, interpretar diferentes sentidos e reconhecer a complexidade dos motivos humanos são habilidades centrais para o trabalho jurídico.
A literatura, segundo Tannuri, oferece esse treinamento. Quem leu Dom Casmurro pode levar para uma petição inicial a mesma desconfiança despertada pela relação entre Bentinho e Capitu. Guerra e Paz, por sua vez, apresenta personagens movidos por medos, desejos e frustrações, elementos que ajudam a compreender como os litígios surgem e terminam.
A poesia também tem utilidade prática. A alteração na ordem das palavras pode mudar o sentido de uma decisão e influenciar a avaliação sobre a conveniência de apresentar um recurso. Por isso, a leitura não aparece apenas como um hábito cultural, mas como parte da formação interpretativa exigida pela profissão.
O que a entrevista revela
Há 30 anos, Tannuri pergunta aos jovens candidatos a estágio o que leram por prazer nos últimos doze meses. A resposta, diz ele, é o momento em que o entrevistado deixa de ser apenas um currículo e se apresenta como pessoa.
A justificativa de que não houve tempo para ler por causa das exigências da faculdade também é observada. Para o advogado, ela mostra como o candidato escolheu ocupar as horas livres e se dedicou à atividade que considera mais influente para sua futura profissão.
Uma experiência atribuída a um escritório de Londres ilustra a diferença entre observar e descrever. Os candidatos deveriam retratar a árvore vista da janela. Os aprovados registravam folhas e variações de luz; os reprovados limitavam-se a dizer que era uma árvore muito grande. A história é associada à formulação de Wittgenstein: “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”.
Tannuri afirma ainda que não se impressiona com alguém fluente em cinco idiomas se essa pessoa não pensa em nenhum deles. Para ele, o leitor é capaz de questionar um caso intrigante ao longo de quatrocentas páginas, enquanto a falta de leitura limita a percepção, a fala e a capacidade de formular ideias.
Rodrigo Tannuri é sócio do Tannuri Advogados e mestre em Direito pela Universidade de Columbia.









