A reação do mercado financeiro ao resultado do primeiro turno deve concentrar volatilidade na abertura desta segunda-feira (5). Bolsa, dólar e juros futuros vão incorporar as expectativas sobre a disputa presidencial, a composição do Congresso e a futura equipe econômica, mas analistas recomendam cautela para não confundir um movimento pontual com uma mudança duradoura de cenário.
Os brasileiros escolheram neste domingo (4) o presidente, 513 deputados federais e 54 das 81 cadeiras do Senado. A eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro chega ao mercado após pesquisas que indicavam equilíbrio. No segundo turno, a AtlasIntel apontava 50% a 50% dos votos válidos, enquanto a Real Time Big Data mostrava 51% a 49%. O Datafolha registrava Lula com 48% das intenções de voto e Flávio com 45%, em empate técnico dentro da margem de erro de 2 pontos porcentuais.
No primeiro turno, o mesmo levantamento indicava 45% dos votos válidos para Lula e 40% para Flávio. Nenhuma pesquisa apontava maioria suficiente para uma vitória já nessa etapa.
O que pode surpreender os preços
A comparação entre o fechamento de sexta-feira (2), as pesquisas e o resultado das urnas será o principal ponto de partida. Segundo Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, a surpresa aumenta quando a diferença entre a votação efetiva e as projeções supera as margens de erro. Também pesam a distância entre os dois primeiros colocados, a realização ou não do segundo turno e a composição do Congresso.
O mercado já vinha precificando uma disputa competitiva. Julio Carelli, da Formadores de Mercado, afirma que pesquisas com menor diferença entre os candidatos foram acompanhadas por alta da Bolsa e queda do dólar e dos juros. Flávio Conde, da Inside, estima que o Ibovespa poderia cair para 170 mil pontos em um cenário favorável a Lula e subir para 220 mil pontos caso Flávio tivesse desempenho melhor, ante índice em 187 mil pontos.
As opções de compra do EWZ passaram de 3 milhões de contratos em julho para 7 milhões no fim de setembro, contra 2,2 milhões de opções de venda. Esse posicionamento pode ampliar a oscilação, tanto na alta quanto na baixa.
Em 2022, no primeiro pregão após o primeiro turno, o Ibovespa subiu 5,54% e o dólar caiu 4,09%. A diferença entre os candidatos havia ficado abaixo do que as pesquisas das semanas anteriores indicavam.
Onde acompanhar a reação
O dólar digital pode oferecer o primeiro sinal no domingo à noite, enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conclui a totalização. Antes da abertura da B3, investidores também devem observar o EWZ e os ADRs de Petrobras, Vale e Itaú negociados em Nova York. Na manhã desta segunda-feira, contratos futuros de dólar e juros começam a ser negociados antes das ações.
A leitura sugerida pelos analistas começa pelo dólar, passa pelos juros futuros longos e chega à Bolsa, com atenção a estatais e bancos. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos completa o painel de risco do país. Os juros curtos refletem as expectativas para a Selic, enquanto contratos longos e NTN-Bs indicam a percepção sobre as contas públicas.
Em setembro, o DI para janeiro de 2031 era negociado a 13,88%, acima da Selic de 13,75%. A diferença representava um prêmio exigido pelo mercado para financiar o país no longo prazo.
Eleição e fatores externos
Parte da oscilação pode vir do exterior. O Federal Reserve elevou os juros em 16 de setembro para a faixa de 3,75% a 4,00%, enquanto o petróleo Brent superou US$ 100 no mês passado. O barril também já havia passado de US$ 107. Petróleo, minério de ferro e indicadores internacionais influenciam empresas como Petrobras e Vale.
Para separar os efeitos domésticos dos externos, os analistas recomendam comparar o real com o peso mexicano, o peso chileno, o rand sul-africano e o DXY. O EWZ pode ser confrontado com ETFs de mercados emergentes, os juros longos com os títulos de dez anos do Tesouro norte-americano e o CDS brasileiro com o de outros países emergentes.
Na sexta-feira, o relatório de emprego dos Estados Unidos mostrou 29 mil vagas criadas em setembro, ante cerca de 90 mil esperadas. Nesta segunda-feira, o índice de atividade de serviços ISM também entra no radar.
Três cenários para o investidor
Uma vitória no primeiro turno eliminaria a dúvida sobre quem governará o país a partir de 2027, mas não resolveria questões como a composição do Congresso, a equipe econômica, a trajetória fiscal e a relação com o Banco Central. O orçamento de 2027 será votado pela atual legislatura até dezembro.
Se um candidato superar as pesquisas e a disputa seguir para o segundo turno, será necessário avaliar se o desvio excedeu a margem de erro, a transferência dos votos dos candidatos eliminados e a evolução das pesquisas seguintes. O tamanho das bancadas aliadas também poderá influenciar a percepção de governabilidade.
Caso a disputa permaneça apertada, a primeira reação pode ser relativamente limitada por já estar prevista nos preços. Nas semanas seguintes, porém, novas pesquisas, apoios políticos, debates e indicações para a equipe econômica podem provocar movimentos fortes.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Na primeira semana de novembro, haverá as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 3 e 4 de novembro.
Cautela na abertura
Os analistas recomendam não operar impulsivamente nos primeiros minutos, quando os preços podem oscilar e os spreads entre compra e venda ficam maiores. Um movimento consistente deve durar mais pregões, vir acompanhado de volume e aparecer de forma coerente no dólar, nos juros e na Bolsa.
Também é recomendável evitar mudanças de longo prazo baseadas em um único pregão, concentração da carteira em um cenário, alavancagem ou decisões tomadas com base em apuração parcial e informações não confirmadas. Resgates de fundos podem não refletir o preço do momento do pedido quando existe prazo de cotização.
A composição do Congresso será decisiva para a agenda econômica. A nova legislatura toma posse em fevereiro de 2027, quando serão eleitos os presidentes da Câmara e do Senado. Dados do Banco Central mostram que, nos 12 meses até agosto, os juros nominais da dívida somaram 8,86% do PIB, o déficit nominal chegou a 9,48% do PIB e a dívida bruta atingiu 82,9% do PIB em agosto.
Depois do primeiro pregão, o mercado deve acompanhar o ministro da Fazenda, as indicações para o Banco Central, uma possível discussão sobre a meta de inflação e o orçamento de 2027. A reforma tributária também está no radar, especialmente a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), cuja alíquota ainda não foi definida.
A economia cresce em 2026 com apoio de estímulos fiscais; a projeção do Sicredi é de alta de 1,8% do PIB. Sem o impulso dos gastos, o avanço seria inferior a 1%. Para os analistas, medidas capazes de moderar o crescimento da dívida podem reduzir os juros de longo prazo e o prêmio de risco, mas a avaliação dependerá das primeiras decisões e sinalizações do novo governo.








