Contratos de opções passaram a concentrar parte das estratégias de gestores brasileiros e investidores estrangeiros em um momento de incerteza sobre a Bolsa, o dólar e as eleições presidenciais. A Verde Asset ampliou posições em ações brasileiras por meio desses instrumentos, enquanto a B.Side mantém opções de compra de dólar. A BTG Asset também identifica oportunidades de usar derivativos no portfólio.
Nos primeiros pregões de setembro, investidores estrangeiros elevaram o volume de calls de EWZ, fundo de índice negociado na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) que acompanha ações de grandes companhias brasileiras. O movimento coincidiu com o rali mais recente do Ibovespa, que acumulou alta superior a 10% nos últimos 30 dias.
Como funcionam as posições
As opções permitem comprar ou vender um ativo por um preço previamente combinado, sem obrigar o comprador a concluir a operação. A call é associada à expectativa de alta; a put, à aposta de queda. O comprador limita a perda ao prêmio pago, enquanto o vendedor recebe esse valor e assume a obrigação prevista no contrato.
A estrutura também permite definir um prazo para a tese e montar ou desmontar posições rapidamente. Mario Machado, assessor de investimentos na InvestSmart XP, afirma que o comprador tem perda limitada e possibilidade de ganho aberto, enquanto o vendedor limita o ganho ao prêmio e fica sujeito à oscilação do mercado.
O custo das opções depende, entre outros fatores, da volatilidade do ativo. Um levantamento da Quantum Finance mostrou que a volatilidade do Ibovespa em agosto, primeiro mês da campanha eleitoral, foi a menor para o período entre as últimas quatro eleições presidenciais. No câmbio, o dólar oscilou entre R$ 5,10 e R$ 5,20 há semanas.
Para Olivia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, esse ambiente favorece a chamada opcionalidade quando o cenário pode produzir movimentos relevantes, mas a convicção do investidor é baixa. “A opção permite definir previamente quanto capital se aceita perder”, afirmou.
Investidor estrangeiro usa calls de EWZ
Dados levantados por Machado na câmara de compensação norte-americana mostravam, na quarta-feira (9), 5,5 milhões de contratos de call em EWZ, ante 1,6 milhão de put. O aumento, porém, não permite identificar sozinho qual estratégia foi adotada pelos investidores.
O volume pode refletir otimismo, proteção de posições já existentes ou venda de prêmio para gerar renda. Operadores no Brasil associam o movimento ao maior interesse pelas eleições presidenciais, cuja disputa apareceu mais apertada nas pesquisas de intenção de voto. Também houve aumento de compras de calls e de call spreads, estrutura que combina opções de compra em diferentes níveis de preço para reduzir o custo da aposta.
A Ágora Investimentos relacionou a movimentação ao empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Quando formadores de mercado vendem calls, podem comprar o ativo-objeto para se proteger conforme o preço sobe. Esse mecanismo ajuda a explicar a pressão compradora sobre o EWZ e o efeito positivo sobre a Bolsa.
A corretora citou Petrobras (PETR3; PETR4), bancos, estatais e o próprio índice entre os ativos ligados à reprecificação e mais sensíveis à volatilidade. A estratégia, contudo, pode ser revertida rapidamente: uma mudança no humor dos investidores pode levar à venda dos contratos e inverter o fluxo de proteção.
As opções vencem em dezembro e estão ligadas, entre outros fatores, a um evento político de resultado incerto. A Ágora também alertou que o movimento não deve ser confundido com melhora nas perspectivas de lucros, corte de juros ou avanço estrutural no quadro fiscal. Para a corretora, a alta atual é em boa medida técnica e especulativa.








