Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Moscou amplia biometria e transforma serviços digitais em rede de vigilância

Câmeras, bancos de dados e intimações eletrônicas facilitam serviços, mas ampliam o controle estatal sobre moradores e críticos do governo.

Moscou amplia biometria e transforma serviços digitais em rede de vigilância
Foto: Nanna Heitmann/The New York Times

Serviços digitais baseados em biometria tornaram tarefas cotidianas mais rápidas na capital russa, mas também ampliaram a capacidade do Estado de monitorar a população. Moradores podem pagar passagens de metrô e concluir a compra de um apartamento usando o rosto. Robôs fazem entregas de mantimentos em 15 minutos, e táxis autônomos devem começar a operar comercialmente ainda este ano.

A estrutura foi desenvolvida pela Prefeitura de Moscou e inclui cerca de 300 mil câmeras de vigilância. As imagens são usadas tanto para conduzir passageiros pelas catracas do metrô quanto para identificar pessoas. A rede está ligada a bancos de dados biométricos, que também podem ser utilizados para localizar críticos do governo depois de manifestações.

O fornecimento de dados biométricos é voluntário na Rússia, mas é incentivado por anúncios. Sem esses dados, os cidadãos não conseguem acessar plenamente os serviços digitais. Em julho, cerca de 10 milhões de russos usavam, de alguma forma, aplicativos baseados em biometria.

Biometria no transporte e no alistamento

O Kremlin pretende ampliar o uso dessas ferramentas em estações de trem e aeroportos. A Prefeitura de Moscou anunciou neste ano um sistema que reconheceria passageiros em ônibus e bondes e descontaria automaticamente a tarifa depois da confirmação da transação em um aplicativo.

A tecnologia também passou a ser usada para reforçar o controle relacionado ao serviço militar. Após milhares de russos fugirem do alistamento em 2022, as autoridades criaram intimações eletrônicas com o mesmo valor legal das notificações em papel.

Em março, Vlad, fotógrafo de arte e moda de 28 anos, recebeu uma intimação para fazer um exame médico obrigatório em um escritório de alistamento. Pelo aplicativo Serviços do Estado, ele descobriu que estava proibido de deixar o país até cumprir a convocação. O fotógrafo, que não divulgou o sobrenome por medo de represálias, afirmou viver “com medo” e disse que parou de usar o metrô por temor das câmeras.

“Há um controle total porque você fornece tantos dados que cada passo seu pode ser rastreado”, disse Vlad.

Em abril, um músico de rock foi detido em uma estação ferroviária em São Petersburgo porque as câmeras o confundiram com uma figura pública ucraniana procurada pelo Estado. A polícia verificou o rosto do homem e puxou seu cabelo para confirmar que ele não usava uma peruca antes de liberá-lo.

Disputa pelo controle da infraestrutura

A rede de Moscou é comparada à de outras cidades europeias, como Londres, mas tem maior centralização e usa biometria para identificar pessoas captadas pelas câmeras com menos restrições.

A expansão da vigilância ocorre em meio à guerra da Rússia na Ucrânia. Analistas alinhados ao Kremlin defendem que aplicativos práticos e a coleta de dados permitem ao governo oferecer serviços mais eficientes do que os disponíveis em democracias ocidentais. A Rússia, porém, ainda está a alguns passos do sistema de crédito social da China, que classifica pessoas conforme seu comportamento e restringe a liberdade de infratores.

Gleb Kuznetsov, analista político que já trabalhou para um centro de estudos alinhado ao Kremlin, citou Moscou, sob o comando do prefeito Sergei Sobyanin, e Shenzhen como modelos urbanos superiores às capitais ocidentais. Segundo ele, a aprovação de Sobyanin se deve ao trabalho do governo municipal em favor dos moradores.

Em março, os serviços de internet móvel foram interrompidos por mais de duas semanas em grande parte do centro de Moscou, inclusive no metrô. A interrupção deixou temporariamente inutilizáveis vários serviços digitais. Alguns analistas atribuíram o apagão à paranoia do Estado depois do assassinato do aiatolá Ali Khamenei no Irã.

Jeremy Morris, etnógrafo que continua realizando pesquisa de campo na Rússia, afirmou que o país pode voltar a uma situação de “globalização fragmentada”, na qual áreas altamente tecnológicas convivem com regiões de economia básica.

Uma autoridade russa envolvida no desenvolvimento da infraestrutura digital disse, sob anonimato, que existe uma disputa entre órgãos tecnocráticos, como o Ministério do Desenvolvimento Digital, e o Serviço Federal de Segurança, o FSB. Segundo ela, o FSB prefere métodos tradicionais de monitoramento e controle e pode sabotar tecnologias desenvolvidas pelos tecnocratas.

Dependência tecnológica

As agências digitais e de segurança competem pela atenção do presidente Vladimir Putin. Em abril, durante uma reunião no Kremlin sobre inteligência artificial, Putin afirmou que a soberania e a própria existência do Estado russo dependeriam da capacidade do país de avançar em IA, plataformas digitais e sistemas autônomos.

Apesar das ambições, a Rússia não tem sozinha a infraestrutura e o hardware necessários para desenvolver a tecnologia. Sanções ocidentais relacionadas à invasão da Ucrânia limitaram o acesso a chips de última geração, enquanto muitos especialistas técnicos deixaram o país desde o início da guerra, em 2022.

Os dois principais modelos russos de IA, desenvolvidos pelo maior banco estatal e pela principal empresa de tecnologia nacional, foram inspirados em arquiteturas chinesas de código aberto ou dependem fortemente delas.

Para Ilya Grashchenkov, analista político baseado em Moscou, o país tenta combinar o isolamento externo com a digitalização interna. Vlad, o fotógrafo convocado, disse que abriria mão das facilidades tecnológicas se pudesse recuperar a liberdade que considera perdida. Ele comparou a vida na Rússia a “viver com uma máscara de oxigênio”.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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