BRASÍLIA — Documentos públicos de investigações sobre o Banco Master indicam que Daniel Vorcaro mantinha contatos com autoridades, políticos e empresários em diferentes frentes. As apurações envolvem financiamento de filme, contratos, recursos no exterior, eventos privados e atuação digital para melhorar a imagem do banco.
O Supremo Tribunal Federal revogou o sigilo dos processos vinculados ao caso a pedido do presidente da Corte, ministro Edson Fachin. André Mendonça havia liberado inicialmente 15 processos. Depois de uma manifestação da Procuradoria Geral da República, Fachin pediu a ampliação do acesso, e Mendonça tornou públicos mais 39 petições e inquéritos relacionados ao caso.
Suspeitas sobre políticos e recursos
Flávio Bolsonaro passou a ser investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a carreira política de Jair Bolsonaro. A produção recebeu recursos de Vorcaro. Flávio nega irregularidades na captação.
A Polícia Federal também registrou a suspeita de que Dias Toffoli seria o beneficiário final ou proprietário de fato do fundo Arleen. O fundo recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro, e o relatório indica que o dinheiro teria chegado às Ilhas Virgens Britânicas por meio de uma transação com a holding Egide I. Toffoli negou ter recebido valores do banqueiro e afirmou que jamais manteve recursos no exterior. O relatório foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado, segundo o gabinete do ministro.
Documentos da PF apontam ainda que Alexandre de Moraes editou pelo menos duas vezes um contrato entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci, sua mulher. O acordo, no valor de R$ 131 milhões, previa sigilo integral e pró-labore mensal bruto de R$ 3.646.529,77.
Filme e influência sobre o Banco Central
A PF afirma que Eduardo Bolsonaro teria orientado a aplicação de recursos destinados a “Dark Horse”. Segundo a investigação, Vorcaro foi responsável pelo financiamento ilícito da produção. O ex-deputado não foi localizado para comentar.
Em mensagens, Vorcaro chamou o aporte no filme de “o mais importante disparado” ao falar com Fabiano Zettel, apontado como seu operador. Os produtores estimavam arrecadar US$ 45 milhões, equivalentes a R$ 230 milhões na cotação indicada nos documentos. A previsão superava em 91% a bilheteria de “Minha Mãe é Uma Peça 3”, que arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões.
O banqueiro também pediu ajuda a Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, para tentar impedir uma norma que endureceria regras de investimento dos fundos de previdência privada. A mudança poderia afetar os planos do Master de vender letras financeiras a regimes de previdência complementar de servidores públicos. Vorcaro se referia ao ex-diretor como “um anjo na vida”.
Festas e reputação digital
Mensagens encontradas nos celulares de Vorcaro indicam a organização de festas com garotas de programa, cantores, DJs e bebidas alcoólicas para aproximar o banqueiro de autoridades e empresários. Fabio Faria teria ajudado a organizar eventos. Há registros de uma embarcação em Angra e de uma boate em São Paulo. Uma festa com tema de Halloween teria ocorrido na boate Madame Satã, no bairro Bela Vista, em São Paulo, em outubro de 2023.
A PF também identificou uma estrutura digital voltada à produção de comentários favoráveis e à neutralização de críticas. Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, teria sido acionado para publicar mensagens positivas sobre a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB).
Os investigadores afirmam que Vorcaro determinou comentários imediatos nas publicações sobre a operação para transmitir a impressão de que a transação havia sido bem-sucedida.
André Mendonça rejeitou ainda um pedido da PF para impedir a viagem a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, de Nathana Lopes Figueiredo, que estava com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão quando ele foi preso em março. Após a prisão e a morte de Sicário, ela informou a um delegado que estava “muito abalada” e perguntou se poderia viajar.








