A linha de crédito criada para taxistas e motoristas de aplicativo trocararem de carro converteu apenas 13% dos R$ 30 bilhões disponíveis em vendas de veículos. O programa se aproxima do fim, previsto para o próximo dia 15, sem alcançar o impulso esperado para a economia.
O resultado contrasta com o desempenho das medidas habitacionais. A Caixa informa ter realizado 290 mil contratações do Minha Casa, Minha Vida, que somaram R$ 55,8 bilhões em financiamentos. O Ministério das Cidades também registra 155,1 mil operações do Reforma Casa Brasil desde a criação do programa, em 2025.
Bancos resistem à linha para veículos
A operação para compra de automóveis enfrentou dificuldades de integração entre os bancos e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pela fonte dos recursos. As financeiras afirmam que a iniciativa foi lançada rapidamente e que muitas instituições não tinham sistemas e processos preparados para operar a linha.
A análise de crédito também limitou a adesão. Parte do público tem renda variável e não atinge os critérios de risco exigidos pelos bancos. A cobertura de 80% do risco por um fundo garantidor não eliminou a resistência das instituições.
O governo acrescentou mais R$ 1 bilhão ao fundo, elevando o aporte total para R$ 3 bilhões. Também aumentou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o preço máximo dos veículos elegíveis e ampliou o prazo de financiamento de 72 para 84 meses.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou que os fundos garantidores reduzem parte do risco, mas que cada financiamento depende das políticas da instituição. Entre os critérios estão a capacidade de pagamento, o endividamento, o histórico de crédito e a estabilidade da renda.
Para Enilson Sales, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), os bancos não tinham processos prontos para operar rapidamente a nova linha. “As instituições financeiras não vão parar tudo para fazer a adequação a um produto que pode vir a vingar ou não”, afirmou.
Estímulo menor que o potencial
O conjunto de medidas de aumento de renda e expansão do crédito tinha potencial estimado em mais de R$ 200 bilhões, cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas calculam, porém, que o efeito convertido em crescimento ficou entre R$ 90 bilhões e R$ 130 bilhões.
A avaliação é que o pacote evitou uma desaceleração mais intensa, mas não teve força para provocar nova aceleração durante o período eleitoral. O endividamento das famílias reduziu a transformação dos recursos em consumo, enquanto os bancos mantiveram cautela na concessão de crédito.
Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, estima que as medidas contribuam com cerca de 1 ponto porcentual do crescimento do PIB neste ano. O impacto potencial, segundo seus cálculos, seria de 1,4 ponto porcentual.
O especialista em contas públicas do Santander, Ítalo Franca, calcula em R$ 220 bilhões, ou 1,5% do PIB, o potencial do pacote em 2026. Para ele, as medidas funcionam mais como amortecedor da perda de ritmo do que como estímulo para uma reaceleração significativa.
Habitação mantém execução prevista
A Caixa informa que o Minha Casa, Minha Vida registrou 290 mil contratações, incluindo 134,1 mil contratos nas faixas 3 e 4. Esses contratos somam R$ 31,7 bilhões. O total financiado pelo programa chegou a R$ 55,8 bilhões.
No Reforma Casa Brasil, foram contratados 155,1 mil financiamentos, com execução de R$ 4,06 bilhões do orçamento. O Ministério das Cidades informa que houve aporte de R$ 750 milhões ao Fundo Garantidor de Habitação Popular (FGHab) para assegurar as contratações.
A Caixa afirma que o ritmo dos contratos habitacionais está dentro das expectativas dos gestores da carteira. O Ministério das Cidades também diz que a execução orçamentária e as metas das linhas do Minha Casa, Minha Vida estão em linha com o planejado.
Economistas ponderam que as novas linhas de crédito não representam integralmente recursos adicionais para a economia. Em parte dos casos, elas apenas substituem financiamentos que seriam contratados por outras fontes.








