Uma análise de crânios indica que o tigre da Tasmânia, ou tilacino, era adaptado para capturar presas pequenas e ágeis, e não animais grandes como ovelhas. A conclusão contraria a acusação histórica de que a espécie representava uma ameaça ao gado criado na ilha australiana da Tasmânia.
O estudo, publicado na segunda-feira (31) na revista Nature Communications, examinou e comparou crânios de tilacinos, raposas e lobos. Os pesquisadores identificaram uma combinação incomum: o animal tinha um crânio muito grande, mas também um focinho longo e estreito, diferente da estrutura robusta associada aos lobos.
Uma anatomia sem equivalente próximo
A Dra. Vera Weisbecker, principal autora da pesquisa e professora de biologia evolutiva da Universidade Flinders, disse que o formato do crânio sugere uma mordida rápida, capaz de atingir bandicoots e marsupiais do tamanho de coelhos. A mandíbula longa aumentaria a velocidade do movimento na ponta durante a mordida, enquanto o crânio grande ajudaria a suportar o impacto.
O padrão não corresponde ao de mamíferos predadores vivos analisados pelos cientistas. Segundo Weisbecker, a estrutura tinha semelhanças funcionais com a de animais que pescam, incluindo alguns crocodilos, cujas mandíbulas longas suportam impactos e a reação de presas que se debatem.
O tilacino era menor do que estimativas antigas indicavam. Um estudo de 2020 calculou peso médio de cerca de 17 kg, contra 29,5 quilogramas da estimativa anterior. Apesar disso, seu crânio era quase tão grande quanto o de um lobo cinzento. Pesquisas anteriores também haviam indicado que o animal tinha aproximadamente metade do tamanho considerado em avaliações científicas passadas.
Weisbecker afirmou que os colonizadores britânicos da Tasmânia associaram a aparência do tilacino à dos lobos e concluíram que ele ameaçava o gado. A pesquisadora disse que as perdas atribuídas ao animal estavam relacionadas a cães selvagens e à má gestão humana.
Extinção e pesquisas futuras
Os tilacinos desapareceram de todos os lugares, exceto da Tasmânia, há cerca de 2.000 anos. A criação de fazendas de ovelhas e gado na ilha, nos anos 1800, foi acompanhada pelo extermínio dos animais. O último exemplar mantido em cativeiro morreu em 1936, no Zoológico de Beaumaris, em Hobart, pouco depois de a espécie receber status de proteção do governo da Tasmânia.
Parentes dos cangurus, os tilacinos eram marsupiais de uma linhagem antiga e não têm parentes vivos próximos. A pesquisa também reforça que eles não eram simplesmente uma versão marsupial de um lobo cinzento, como observou Love Dalén, professor de genômica evolutiva na Universidade de Estocolmo, na Suécia.
Novas análises de crânios antigos e recentes, reunidos em diferentes partes da Austrália, podem revelar a diversidade da espécie antes de sua extinção. O tema também se relaciona aos projetos de desextinção liderados por Andrew Pask, da Universidade de Melbourne, em parceria com a Colossal Biosciences, de Dallas.
Pask trabalha na recuperação de DNA antigo e em técnicas de reprodução artificial para criar um animal híbrido. Weisbecker não participa do projeto e defende que os povos indígenas tenham a custódia do animal e influência sobre os planos de desextinção.



