A China mantém uma estrutura de governo marcada pela presença de engenheiros e pela execução de grandes obras, enquanto os Estados Unidos passaram a priorizar processos, regras e disputas jurídicas. Essa é a principal tese de A Todo Vapor, livro de Dan Wang que chegou ao Brasil pela Intrínseca.
Wang, ex-consultor da Gavekal que viveu entre São Francisco e Xangai, sustenta que a China moderna foi conduzida por profissionais ligados à engenharia desde as reformas de Deng Xiaoping. O líder chinês promoveu engenheiros aos postos mais altos do governo nas décadas de 1980 e 1990.
Xi Jinping estudou Engenharia Química e, em seu terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista, mantém no Politburo executivos vindos dos ministérios de aeroespacial e armamentos. Para Wang, os dirigentes chineses também atuam como engenheiros sociais.
Obras e prioridades
Desde 1980, quando começaram as reformas de Deng, a China ampliou suas autoestradas em extensão equivalente ao dobro dos sistemas viários dos Estados Unidos. Também construiu uma rede ferroviária de alta velocidade vinte vezes maior que a equivalente no Japão e instalou quase a mesma capacidade de geração solar e eólica de todos os demais países juntos.
O autor compara esse modelo à trajetória americana. Os Estados Unidos já foram uma sociedade voltada à construção e à engenharia, mas, a partir dos anos 1960, advogados e ativistas ganharam espaço no governo e no Congresso. Wang resume essa transformação ao afirmar: “Os EUA têm um Governo de advogados, feito por advogados e para advogados”.
Na avaliação dele, a sociedade legalista produziu dois problemas. O primeiro é a prioridade dada aos procedimentos em detrimento dos resultados. O segundo é a tendência de favorecer pessoas com mais dinheiro e poder, já que os advogados costumam trabalhar para grupos que concentram recursos.
Wang reconhece que os Estados Unidos continuam crescendo mais rapidamente que outros países ocidentais graças ao desempenho de suas empresas. Politicamente, porém, considera que o legalismo reduziu a confiança da população na capacidade do governo de entregar melhorias. A saída, segundo o autor, seria retomar a construção de projetos capazes de gerar impulso e otimismo para o futuro.
A comparação com o Brasil
O livro também permite uma comparação com o Brasil. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o antecessor dele, Fernando Haddad, formaram-se em Direito no Largo São Francisco. Entre senadores e deputados, Direito é a formação acadêmica predominante.
Desde a República Velha, os advogados predominam na Presidência, descontados os 15 militares. Entre 28 presidentes civis, 21 tinham formação jurídica. O país teve apenas um engenheiro, Itamar Franco, e dois economistas, Fernando Collor e Dilma Rousseff.
O Brasil tem 1 advogado para cada 164 pessoas, proporção superior à dos Estados Unidos, onde há 1 para cada 253 habitantes.
Limites do modelo chinês
Apesar da eficiência em vários aspectos, o modelo chinês também apresenta fragilidades, de acordo com Wang. Na visão dele, o país provavelmente nunca vai superar os Estados Unidos porque seus líderes comunistas não confiam na população e não sabem atrair pessoas talentosas.
O autor afirma que Beijing não será capaz de reproduzir a defesa americana do pluralismo e dos direitos individuais. Também diz que o governo chinês não reconhece o potencial criativo de pessoas empreendedoras levadas ao exílio.
No excerto do livro, Wang descreve ainda a diferença entre a infraestrutura encontrada em cidades chinesas e a disfunção observada na região da Baía de São Francisco. Ele relata que, ao viajar da Califórnia para Hong Kong ou Xangai, encontra metrôs, estações e áreas comerciais que contrastam com problemas de transporte, moradia e energia na Bay Area.
A partir dessa comparação, o autor conclui que os rótulos políticos do século XX, como capitalista e socialista, já não explicam adequadamente os dois países. Para ele, os Estados Unidos combinam livre mercado, regulação, tributação e políticas redistributivas, enquanto a China, embora se declare socialista, mantém uma rede de proteção social precária, barreiras à imigração e papéis tradicionais de gênero.









