A diretora de televisão Amora Mautner afirma que o principal obstáculo para mulheres em posições de comando continua sendo atuar em um ambiente dominado por homens. Em conversa com Nilton Bonder, ela relacionou essa dificuldade à expectativa de que mulheres apaziguem conflitos e suavizem decisões.
“Eu não preciso de ninguém me dizendo que eu valho, porque eu já valho para mim”, disse Amora. Para ela, a liderança no audiovisual exige trabalho coletivo, capacidade de reunir pessoas e uma relação de confiança entre direção e elenco.
A diretora citou a química com Adriana Esteves, Isabel Teixeira e Tata como um dos elementos capazes de alterar o resultado de uma produção. Também afirmou que procura profissionais que ampliem sua visão. O processo de uma novela, segundo Amora, começa na sinopse e é desenvolvido em parceria com os autores, respeitando a hierarquia do texto.
Da infância à direção
Filha de Jorge Mautner, Amora cresceu no Leblon em meio a nomes ligados à música brasileira. Ela se define como uma “filha do tropicalismo” e conta que, antes de escolher a direção, mudava os móveis de casa, montava cenários e lia quadrinhos. A experiência influenciou sua forma de trabalhar: “Quadrinho é storyboard. Tudo que eu faço é quadrinho, só que com emoção”, afirmou.
Amora e Preta Gil, também filha do tropicalismo, iniciaram juntas a carreira nos anos 90, como assistentes de arte e figurino da produtora Conspiração. Depois, Amora chegou à Globo. Ela foi a Curicica para uma vaga de estágio em assistência de direção após uma ligação para Roberto Talma, incentivada por sua analista.
Mais tarde, integrou a direção de O Cravo e a Rosa, em 2000, e comandou Avenida Brasil como diretora-geral, em 2012. Atualmente, dirige artisticamente Quem Ama Cuida, novela das nove da emissora.
Entre suas referências, Amora menciona Roberto Talma, Paulo José e Walter Avancini. Sobre a inteligência artificial, avalia que o diferencial humano estará menos na execução e mais na abstração, na curadoria, no repertório e na originalidade.
A maturidade também mudou sua relação com a ausência e a frustração. Amora diz que tenta valorizar o que não possui e transformar a falta em criação. Essa visão aparece nos personagens: para ela, não existem vilões ou mocinhos totalmente puros. A televisão, afirmou, permite trabalhar uma complexidade narrativa que a internet não oferece.








