As preocupações com ataques cibernéticos e fraudes associados à inteligência artificial já influenciam os mercados financeiros. A CrowdStrike, empresa de segurança digital, teve suas ações valorizadas, enquanto o mercado de seguros para riscos relacionados à tecnologia ainda tenta definir como medir e precificar essas ameaças.
Investidores se dividem entre os que esperam efeitos transformadores e lucros com a IA e os que duvidam dos retornos prometidos. Uma terceira possibilidade ganhou espaço: a de sistemas extremamente capazes, mas perigosos, que poderiam invadir redes, facilitar fraudes ou enganar engenheiros humanos.
O medo como fator de valorização
A preocupação com ataques cibernéticos viabilizados pela IA ajudou a elevar o valor das ações de empresas do setor. O preço dos papéis da CrowdStrike mais que dobrou nos últimos seis meses e chegou a quase 200 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses.
A lógica também pode ser aplicada no sentido oposto. Empresas mais expostas a ataques e fraudes poderiam, em tese, ser negociadas com desconto. Entre os segmentos privados considerados vulneráveis estão saúde, finanças, telecomunicações e transportes. Pequenas e médias empresas seriam mais suscetíveis do que concorrentes maiores.
Uma estratégia possível para investidores dispostos a correr riscos seria comprar contratos de swap de crédito (CDS) contra a dívida de bancos regionais. A ideia seria se posicionar diante de perdas associadas à vulnerabilidade dessas instituições.
Seguros ainda sem referência
Para ameaças conhecidas, como enchentes, incêndios florestais e terrorismo, o caminho tradicional é contratar seguros. No caso da IA, porém, esse mercado avança lentamente. Até os riscos físicos enfrentados por data centers são difíceis de cobrir.
No início deste ano, o Insurance Services Office, organização que estabelece padrões para o setor, divulgou um modelo de apólice que excluía danos provocados por IA generativa de várias coberturas. Grandes empresas também pediram aos órgãos reguladores autorização para retirar ameaças desse tipo de seus contratos.
A cautela abriu espaço para startups que tentam oferecer proteção, mas essas empresas ainda são pequenas diante da dimensão do problema. A dificuldade está na própria definição de risco: seguros dependem de probabilidades quantificáveis, enquanto as ameaças ligadas à IA são novas, pouco compreendidas e baseadas em poucas evidências.
O limite das apostas contra o desastre
O economista Tyler Cowen defende que pessoas que atribuem alta probabilidade a uma catástrofe deveriam testar suas previsões no mercado. Se estivessem certas, os sinais de um desastre futuro começariam a afetar os preços antes de sua ocorrência.
Alex Tabarrok, colega de Cowen, já chamou esse tipo de aposta de “um imposto sobre a conversa fiada”. A estratégia, no entanto, enfrenta um limite quando se trata dos riscos extremos da IA. Uma ameaça existencial não poderia ser protegida por hedge de maneira convencional: mesmo que suas chances fossem calculadas, não haveria garantia de que a contraparte existiria para pagar a indenização.
Pesquisadores dos principais laboratórios de IA temem que essas ferramentas possam ajudar Estados hostis ou grupos terroristas a desenvolver armas biológicas. Alguns avaliam que modelos avançados poderiam levar à extinção da humanidade.
Em um cenário de tomada de controle pela IA, no qual os seres humanos fossem subjugados ou deixados de lado, as próprias entidades de IA seriam as possíveis dominantes. Isso tornaria ainda mais difícil imaginar uma apólice capaz de proteger os investidores contra esse tipo de ameaça.








