A aplicação da inteligência artificial a serviços, operações e produtos financeiros pode abrir uma oportunidade relevante para empresas brasileiras, segundo Edson Rigonatti, cofundador e general partner da Astella, gestora de venture capital. Para ele, o país não precisa disputar a liderança na criação dos maiores modelos de AI para capturar valor com a tecnologia.
Rigonatti afirma que, em uma carteira de investimentos, renda fixa e venture capital exercem funções diferentes. Enquanto o CDI remunera o capital pelo tempo, o venture capital oferece exposição a transformações capazes de multiplicar o valor das empresas ao longo de muitos anos. Ele relata ter mais de 20 anos de atuação na área e cita a Selic em 14% como exemplo do ambiente de juros elevados no Brasil.
Na avaliação do investidor, a inteligência artificial representa uma transformação estrutural. A exposição mais evidente está nos Estados Unidos, onde se concentram grandes laboratórios, modelos, capital e talento técnico. Israel se destaca em deep tech e cibersegurança, enquanto a China reúne escala e velocidade de adoção.
Serviços e complexidade brasileira
A oportunidade brasileira estaria na aplicação da AI a problemas locais. Uma das frentes apontadas é a categoria de AI Native Services. Depois de três décadas em que o software foi desenvolvido principalmente para apoiar o trabalho humano, a tecnologia permite criar empresas voltadas à execução de parte dessas atividades.
Soluções para cobrança, contabilidade, compras, atendimento e compliance podem ampliar a capacidade de profissionais e empresas. O potencial aumenta quando a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a integrar o próprio produto. Nesse modelo, a empresa pode vender trabalho executado ou resultado entregue, além de disputar recursos antes destinados a serviços, consultorias e equipes operacionais.
Como aproximadamente 70% do PIB brasileiro vem do setor de serviços, Rigonatti considera significativa a dimensão desse mercado. Ele também aponta a complexidade tributária, regulatória, financeira e operacional do país como possível matéria-prima para novas empresas. Regras, exceções, documentos e obrigações podem gerar demanda por sistemas capazes de interpretar e executar processos com eficiência.
AI e serviços financeiros
Outro vetor está na aproximação entre inteligência artificial, operações e serviços financeiros. Sistemas que organizam informações, executam tarefas e participam de processos de negócio podem se aproximar do momento em que uma transação ocorre. A partir daí, podem abrir espaço para pagamentos, crédito, seguros e outros produtos financeiros.
Para Rigonatti, Pix, digitalização bancária e o arcabouço financeiro desenvolvido nas últimas décadas favorecem essa integração no Brasil. A oportunidade, portanto, estaria menos na construção da infraestrutura tecnológica e mais na aplicação dela a uma economia de serviços ampla, a problemas locais complexos e a um sistema financeiro preparado para incorporar novas camadas de tecnologia.
Na visão do cofundador da Astella, o venture capital busca exposição a empresas que possam crescer de forma desproporcional quando mudanças estruturais alteram mercados inteiros. A inteligência artificial seria uma dessas mudanças, com potencial para gerar valor no Brasil mesmo que o país não esteja na liderança da criação da tecnologia.









