A previsão de mais uma safra recorde de soja reforça o peso do agronegócio na economia brasileira, mas também expõe um desafio de gestão: produzir mais não garante, por si só, criação de valor. O avanço da produtividade veio acompanhado de investimentos maiores em terras, máquinas, insumos e estruturas administrativas, em um cenário de custos elevados, volatilidade internacional e juros restritivos.
Nas últimas décadas, o setor combinou tecnologia, ganhos de escala e vantagens naturais para ampliar sua participação na oferta global de alimentos e commodities agrícolas. A expansão da demanda internacional valorizou as terras e acelerou a mecanização. Ao mesmo tempo, elevou a quantidade de capital necessária para manter as operações.
Lucro contábil não é suficiente
A análise baseada apenas no lucro líquido ou no volume produzido pode esconder resultados econômicos inferiores. Para avaliar o desempenho de forma mais completa, é necessário considerar o custo de oportunidade de todo o capital empregado e o risco assumido pela operação.
O Valor Econômico Agregado (EVA) mede o excedente depois da remuneração da estrutura de capital a uma taxa compatível com o risco. A métrica também leva em conta o valor de mercado dos ativos, e não apenas seus registros contábeis. Em setores intensivos em capital, essa diferença é relevante, especialmente porque terras quitadas continuam representando recursos imobilizados que poderiam ser destinados a outras alternativas.
Em The Quest for Value, G. Bennett Stewart III defende que indicadores tradicionais podem distorcer a avaliação do desempenho econômico por não refletirem o valor de mercado dos ativos. O EVA, nesse entendimento, é calculado após a dedução do custo de oportunidade do capital investido.
Exemplo de destruição de valor
Uma propriedade avaliada em R$ 100 milhões e com lucro operacional de R$ 10 milhões pode parecer rentável. Porém, com custo médio ponderado de capital (WACC) de 18% ao ano, o custo implícito do ativo chegaria a R$ 18 milhões. Nesse caso, haveria destruição de valor apesar do resultado contábil positivo.
A adoção dessa perspectiva exige modelo de negócio definido, clareza sobre a atividade principal, avaliação rigorosa dos riscos e precificação do capital investido. A proposta é tratar as propriedades também como ativos financeiros, subordinando decisões, metas e incentivos ao retorno ajustado ao risco.
Para Guilherme Nodari Sguario, aluno do Mestrado Profissional em Administração na FGV EAESP, economista e empresário no agronegócio, o próximo avanço do setor deve ser financeiro e estratégico. A competitividade dependeria não apenas da eficiência produtiva, mas da capacidade de alocar capital de forma disciplinada e gerar valor no longo prazo.








