O Lada Niva 4x4 percorreu mais de 5.000 quilômetros entre São Paulo e o Chaco paraguaio para acompanhar o Rali Transchaco de 1991. Totalmente original, o utilitário enfrentou estradas de terra, trilhas, lama, poeira e trechos percorridos em alta velocidade por carros preparados para a competição.
A aventura começou em um trecho de 123 quilômetros no caminho para a Bolívia, a 1.600 quilômetros de São Paulo. A estrada tinha muitos buracos e pontes de madeira. Durante a produção das fotos, o Niva precisou atravessar um lamaçal. Depois de afundar e patinar, conseguiu sair com o bloqueio do diferencial acionado.
Entre carros de competição e espinheiros
O trecho mais difícil veio quando os competidores começaram a passar. Para garantir os pontos de fotografia, o Niva precisava seguir à frente dos carros do rali. Na estrada estreita, a poeira impedia a visão, enquanto Toyota Celica chegavam a mais de 200 km/h.
Sem espaço para sair da pista, o veículo era jogado para a vegetação. Os espinheiros tinham até um palmo de comprimento. Em algumas passagens, o velocímetro ficou nos 100 km/h, com o utilitário derrapando, freando e pulando sobre o terreno irregular.
O Niva levava três pessoas da equipe, bagagens, dois tambores de água, gasolina sobressalente no teto, ferramentas e uma geladeira portátil. Mesmo carregado, manteve o ritmo e chegou a Mariscal Estigarríbia, povoado militar próximo à Bolívia e ponto de passagem do Rali Transchaco.
A chuva da noite mudou as condições da prova. O pó deu lugar ao barro, que reduziu a visibilidade dos competidores, mas tornou as curvas mais escorregadias. O Niva acompanhou os carros em trechos enlameados a 100 km/h e fez paradas rápidas para as fotografias.
Em Desvio Línea 1, a equipe deixou o roteiro original para buscar combustível. O caminho revelou comunidades agrárias isoladas e uma paisagem em que a agricultura e a pecuária substituíam o cenário árido do Chaco.
A prova de 1991
Na 18ª edição, o rali teve quase três mil quilômetros, disputados em três dias consecutivos. As temperaturas se aproximaram dos 40 graus, e as condições alternaram entre muito pó e chuvas torrenciais, que transformaram as trilhas em atoleiros.
Dos 103 veículos que largaram, 45 chegaram. A competição reuniu principalmente pilotos amadores paraguaios. Também participaram duas equipes argentinas e uma brasileira, a Internacional Racing Turbogás Cofap, com um Gol 1.8 dirigido por Reinaldo Varela e navegado pelo paraguaio Luís Panza.
A disputa tinha Toyota Celica 4x4, Lada Samara, VW Gol, Ford Escort europeu, Ford Sierra, Peugeot, Alfa Romeo, Lancia, Nissan, Fiat, Subaru, Fusca, VW Voyage e Golf GTI. A Lada levou três Samara e uma estrutura de apoio que incluía dois caminhões 6x6 Kamaz.
O Niva, por outro lado, não tinha guincho e carregava apenas um estepe. A orientação recebida era evitar as trilhas. Ainda assim, o veículo precisou seguir os competidores e abrir passagem em meio aos espinheiros.
Na largada, em Assunção, o primeiro posto de controle ficava a 280 quilômetros. No trecho inicial de asfalto, Reinaldo Varela relatou ter sido ultrapassado por um Toyota Celica enquanto dirigia a 170 km/h. Mais tarde, os carros que vinham atrás do Niva pediam passagem a 130, 140 e 150 km/h.
As duas etapas finais partiam de Mariscal Estigarríbia. A primeira formava uma alça de 664 quilômetros em direção à Bolívia. No segundo dia, Varela abandonou por falhas no motor do Gol. O Golf GTI, que liderava, perdeu tempo com reparos e também deixou a prova.
Chegada e resultado
No terceiro dia, o barro voltou a dominar o percurso. Com combustível emprestado, foi possível chegar a Pozo Colorado a tempo de acompanhar a comemoração da equipe Toyotoshi, vencedora com o Celica 4x4 de Marco Galanti e Óscar Ramirez.
O VW Gol de Oscar Sandoval e Leandro Barrua terminou em segundo, seguido por um Toyota Corolla de Lafarga/Ahyala. O Peugeot 505 de Barros/Signonino ficou em quarto. Os Samara da Lada terminaram em 15º, 23º e 26º lugares.
Na volta a São Paulo, depois de mais de 5.000 quilômetros, quase três mil deles no Chaco paraguaio, o Niva registrou consumo médio de oito quilômetros por litro. Apesar das condições enfrentadas, não teve nenhum pneu furado.








