A gasolina E35, com 35% de etanol anidro, ainda está em fase inicial de testes, mas já provoca preocupação sobre os critérios de qualidade e fiscalização. O especialista Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), afirma que o aumento do etanol precisa ser acompanhado de mudanças nos parâmetros de octanagem mínima e massa específica.
Sem essa revisão, fraudadores poderiam usar solventes, naftas de baixa qualidade e etanol para produzir uma mistura capaz de atender ao teste da proveta realizado nos postos. Gonçalves avalia que o problema só seria identificado por uma análise laboratorial mais detalhada.
Parâmetros da gasolina
A octanagem, medida pelo RON (Research Octane Number), indica a resistência do combustível à detonação durante a queima no motor. Níveis mais altos permitem maior compressão na câmara de combustão e podem favorecer a eficiência e a economia do veículo, conforme a explicação do especialista.
A massa específica relaciona a massa ao volume do combustível e funciona como indicador de composição, pureza e rendimento energético. Valores fora do padrão podem ajudar a detectar a presença de solventes inadequados ou água. A especificação atual foi estabelecida pela Resolução nº 988/2025 da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que elevou a octanagem da gasolina comum de RON 93 para 94 e definiu a massa mínima em 688,9 kg/m³.
O aumento do etanol tende a reduzir levemente a autonomia, porque esse combustível tem menor poder calorífico que a gasolina. Por outro lado, Gonçalves afirma que sistemas eletrônicos de motores modernos podem ajustar a taxa de compressão ao identificar combustível com octanagem mais alta.
Testes e chegada aos postos
O Ministério de Minas e Energia autorizou o início dos testes da E35. O cronograma foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF), mas depende da publicação de uma Portaria para entrar em vigor. A aprovação da nova mistura cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e ainda não há data para a chegada da E35 aos postos.
A possibilidade de ampliar o teor de etanol está prevista na Lei do Combustível do Futuro (14.993/24), desde que seja comprovada a viabilidade técnica.
Fabricantes e importadoras de veículos, representados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e pela Associação Nacional das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeifa), contestam o aumento compulsório que criou a gasolina E32. As entidades afirmam que faltam estudos técnicos específicos e conclusivos, especialmente sobre durabilidade, emissões, autonomia e funcionamento dos veículos.
A preocupação é maior em relação aos carros movidos somente a gasolina, enquanto parte considerável da frota brasileira é formada por veículos flex. Em julho, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou pedido liminar para suspender a elevação do teor de etanol para 32%, alegando falta de análise de impacto que demonstre cientificamente a viabilidade da medida para a frota nacional.








