A obesidade continua negligenciada na atenção primária à saúde, apesar dos avanços terapêuticos dos últimos anos. A avaliação é de Maria Socorro Morais, médica nutróloga e ginecologista, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela também pesquisa no Núcleo de Tecnologias Estratégicas Aplicadas à Saúde (NUTE), da Universidade Estadual da Paraíba.
Morais afirma que o Brasil enfrenta uma pandemia de obesidade, enquanto os tratamentos mais recentes ainda não estão disponíveis de maneira ampla. Entre os exemplos estão os análogos e as incretinas, hormônios intestinais que estimulam a liberação de insulina após a ingestão de alimentos e ajudam no controle da glicose no sangue.
“Embora tenhamos avanços terapêuticos significativos, o acesso a esses tratamentos ainda é restrito”, afirma a médica. De acordo com ela, o custo elevado faz com que esses medicamentos fiquem concentrados entre pessoas com maior capacidade financeira. A inclusão das terapias no Sistema Único de Saúde (SUS) já é discutida, mas a médica estima que uma ampliação ocorra apenas no médio prazo.
Tratamento além da perda de peso
Para Morais, o cuidado deve considerar também a composição corporal, a saúde metabólica, os aspectos emocionais e a saúde reprodutiva. Ela relata o caso de uma paciente de 29 anos com Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), esteatose hepática e alterações metabólicas.
O acompanhamento envolveu psicólogos, nutricionistas e educadores físicos. A primeira etapa durou seis meses e teve como objetivos reduzir a adiposidade, preservar a massa magra e corrigir deficiências nutricionais. Depois, foi iniciado o acompanhamento de longo prazo.
O protocolo incluiu metformina, agonistas de GLP-1 em doses ajustadas, mudanças na alimentação e participação ativa do cônjuge. Em 14 meses, a paciente passou de 110 kg para 74 kg, com melhora na composição corporal e na saúde metabólica. O tratamento também permitiu planejar uma gestação.
“Esse caso reforça que o sucesso no tratamento da obesidade vai além da perda de peso numérica”, diz Morais. Segundo ela, a mudança no estilo de vida levou a paciente a se tornar corredora e envolveu o marido no processo.
A médica defende que ginecologistas estejam preparados para acompanhar aspectos metabólicos e preventivos. Na avaliação dela, a consulta ginecológica costuma ser um dos principais pontos de contato da mulher com o sistema de saúde. Morais também destaca a educação continuada, o autocuidado e o acesso à informação como medidas necessárias para enfrentar o aumento das demandas do SUS, incluindo o envelhecimento da população e a obesidade. Ela atuou durante quase 30 anos na Maternidade Escola Januário Cicco, da UFRN.








