Voltar à escola, caminhar sem dor, praticar esportes e fazer planos são conquistas retomadas por pacientes depois de transplantes. As histórias de Davi Giló, Nicolas Fleischmann, Graziele Monteiro e Ari Perez também destacam a importância da doação de órgãos para reduzir a espera por cirurgia.
Em 2025, o Brasil teve 4.335 doadores efetivos. Em dezembro passado, 73.877 pacientes permaneciam ativos na lista de espera. No mesmo ano, 45% das famílias consultadas recusaram a doação.
Para Maria Fernanda Camargo, diretora de Transplantes e Nefrologia da Rede Américas, a decisão deve ser discutida previamente entre os familiares. “São os que ficam que tomam essa decisão”, afirma.
O segundo rim de Davi
Aos 11 anos, Davi voltou às aulas, joga futebol e pode dormir na casa da tia. Nascido com insuficiência renal crônica, ele se mudou com a mãe, Shirlene, de Maceió para Recife, onde fez diálise peritoneal e hemodiálise.
A família depois transferiu o tratamento para São Paulo, após conhecer Maria Fernanda Camargo, que atua há 33 anos no Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas. Davi recebeu um rim em 2019, mas posteriormente teve uma doença linfoproliferativa pós-transplante, classificada como um tipo de linfoma. Depois de tratar a doença, voltou a precisar de diálise e passou por um novo transplante renal em setembro de 2024.
A médica afirma que realizar o procedimento cedo pode ajudar a criança a acompanhar atividades comuns da infância e o desenvolvimento escolar. No Samaritano Higienópolis, o transplante renal pode ser feito em crianças a partir de sete quilos. Em 2026, o programa pediátrico recebeu a segunda recertificação da Joint Commission International (JCI), enquanto o hospital obteve a sétima.
Rim do pai e cirurgia robótica
Nicolas Fleischmann, de 33 anos, tinha doença renal desde a infância e começou a hemodiálise em 2024. Após as avaliações, Luiz Carlos Matos Pacheco, de 60 anos, foi apontado como o doador mais adequado. O transplante ocorreu em julho, no Hospital Brasília, da Rede Américas, no Distrito Federal.
A equipe utilizou uma plataforma robótica e aproveitou uma cicatriz antiga para fazer pequenas incisões. Segundo o urologista Fransber Rodrigues, a técnica minimamente invasiva pode diminuir dor, sangramento e tempo de internação, além de favorecer o retorno às atividades.
Nicolas diz que os cortes ficaram minúsculos e que não sente dores. O programa do Hospital Brasília também recebe residentes para formação técnica.
Doação entre irmãos
Graziele Monteiro, de 44 anos, precisou de um transplante de fígado após tratamentos contra um câncer no órgão. O procedimento foi conduzido pelo cirurgião Tércio Genzini, do Hospital Leforte Liberdade, em São Paulo.
O irmão, Tiago Monteiro, de 37 anos, era o único familiar compatível, mas tinha sobrepeso, gordura no fígado, colesterol e triglicérides elevados. Ele mudou a alimentação, parou de consumir bebidas alcoólicas, passou a se exercitar e perdeu 16 quilos em menos de dois meses. Depois, doou parte do fígado à irmã.
O hospital também realiza transplante pareado de rim. A modalidade permite formar uma cadeia com duas, três ou mais duplas quando pessoas dispostas a doar são incompatíveis com seus familiares, mas existe compatibilidade cruzada entre os pares.
Transplante após tumor no fígado
Ari Perez, de 70 anos, descobriu um tumor no fígado durante uma cirurgia para retirada da vesícula. Ele passou por duas radioablações e uma quimioembolização antes de receber a indicação para o transplante.
O paciente foi acompanhado pelo cirurgião Eduardo Fernandes, do Hospital São Lucas Copacabana, no Rio de Janeiro. Segundo o médico, pessoas com câncer passam por avaliação multidisciplinar, e cada indicação segue um protocolo conforme a extensão da doença.
Fernandes atua na área de transplant oncology, que integra oncologia e transplante de fígado. O hospital também utiliza uma máquina de perfusão hepática, capaz de manter o órgão doado em funcionamento fora do corpo por algumas horas para avaliação. Ari recebeu alta seis dias depois da cirurgia.
A Rede Américas reúne 15 hospitais transplantadores em São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Bahia e Pernambuco. As unidades realizam transplantes de rim, fígado, coração, pulmão e pâncreas, além de medula óssea, tecidos e procedimentos combinados.








