As evidências disponíveis não indicam que borrifar perfume no pescoço exponha a tireoide a uma dose maior de substâncias químicas ou faça com que os componentes da fragrância cheguem seletivamente à glândula. A aplicação nessa região também não foi associada, até o momento, a um risco específico de câncer ou de doença da tireoide.
A tireoide fica na parte frontal inferior do pescoço, sob a pele e várias camadas de tecido conjuntivo e muscular. A pele funciona como uma barreira: dependendo da substância, da composição, da dose e do tempo de contato, um ingrediente pode evaporar, permanecer na superfície, penetrar nas camadas cutâneas ou alcançar a corrente sanguínea. Estar perto de um órgão não significa que a substância tenha esse órgão como alvo.
Ftalatos e exposição hormonal
Parte da preocupação envolve os ftalatos, grupo de substâncias com diferentes usos e efeitos. O ftalato de dietila, conhecido como DEP, pode ser usado como solvente e fixador em fragrâncias. Os efeitos observados em um ftalato não podem ser automaticamente atribuídos a todos os integrantes da família.
Uma revisão sistemática publicada online em 2024 reuniu 17 estudos com 5.616 crianças e adolescentes. O trabalho identificou associações entre a exposição a ftalatos e os níveis de alguns hormônios da tireoide, mas os resultados para outros hormônios foram inconsistentes. Como os estudos avaliaram diversas fontes de exposição e não investigaram o uso de perfume no pescoço nem o desenvolvimento de doenças da tireoide, eles não comprovam relação de causa e efeito.
Em outro estudo, com 337 mulheres, as participantes que usavam perfume apresentaram níveis urinários mais altos de ftalato de monoetila, produto da degradação do DEP. O resultado indica que o perfume pode ser uma fonte de exposição, mas a pesquisa não avaliou danos à tireoide nem o local em que a fragrância foi aplicada.
O risco de uma substância com possível efeito sobre o sistema hormonal depende da composição química, da dose, da via e da duração da exposição. O uso repetido renova a exposição, mas isso não significa necessariamente acúmulo no organismo. Os ftalatos são transformados em produtos de degradação e eliminados rapidamente pela urina.
Reações mais bem estabelecidas
O problema mais claramente relacionado ao uso de perfume diretamente na pele é a dermatite de contato alérgica, que provoca coceira, inflamação e erupção cutânea. Uma revisão estimou que a alergia de contato a fragrâncias afeta de 0,7% a 2,6% da população em geral.
A reação pode aparecer depois que o sistema imune se sensibiliza a um ingrediente. Em contatos posteriores, a pele pode ficar vermelha e apresentar uma erupção semelhante ao eczema. O perfume também pode irritar a pele sem causar alergia. Se o quadro persistir ou voltar, testes de contato podem ajudar a identificar a causa.
Algumas fragrâncias ainda podem provocar reação fototóxica, semelhante a uma queimadura solar, quando a pele entra em contato com a substância e é exposta à luz. Um estudo identificou esse potencial no óleo de bergamota sob exposição à radiação ultravioleta A, ou UVA. O risco dependia da concentração e da dose de radiação, portanto não se aplica a todos os perfumes.
O perfume também é citado por pessoas com enxaqueca como possível gatilho das crises, embora os estudos baseados em relatos de memória não comprovem causalidade nem indiquem dano à tireoide. A exposição solar prolongada é considerada um dos principais fatores associados à poiquilodermia de Civatte, condição que pode causar pele marrom-avermelhada e afinada nas laterais do pescoço. Um estudo com 32 pacientes sugeriu possível contribuição da alergia a fragrâncias em alguns casos, mas não demonstrou que os perfumes causem a condição.
Para a maioria das pessoas, não há motivo relacionado à tireoide para evitar especificamente a aplicação de perfume no pescoço. A Cancer Research UK não relata evidências de que o uso de perfume cause câncer. Se houver ardência ou erupção com coceira, a recomendação é interromper o uso na pele e buscar orientação médica se a reação persistir. Fragrâncias naturais também podem causar alergia, e a indicação de que um produto é sem ftalatos não garante, por si só, que ele seja mais seguro.








