SÃO PAULO — O presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), Durval Ribas Filho, relacionou o uso sem orientação das canetas emagrecedoras ao aumento de casos de pancreatite. Segundo ele, ainda não há dados no Brasil para medir a proporção de complicações, mas o número de pessoas que utilizam os medicamentos é alto.
"Não por acaso, aumentou demais os casos de pancreatite", afirmou o nutrólogo. Ribas Filho também citou 13 mortes no Reino Unido diretamente ligadas ao uso dos produtos sem orientação.
Armazenamento e prescrição
O médico afirmou que as canetas são medicamentos e devem ser prescritas por profissionais, considerando o perfil de cada paciente. Ele relatou que institutos de beleza e esteticistas estão prescrevendo os produtos em cidades de todo o país para pessoas que buscam perder peso rapidamente.
Outra preocupação apontada pelo presidente da Abran é a entrada de produtos no Brasil em embalagens inadequadas e sem armazenamento na temperatura indicada. Ele comparou o cuidado necessário ao exigido pela insulina e disse que parte das canetas chega ao país sem seguir um padrão.
Ribas Filho classificou a banalização desses medicamentos como um desafio sanitário e defendeu a disseminação de informações corretas, a educação da população e uma medicina mais humanista. Para ele, a mudança é difícil porque informações não científicas podem ter mais força do que evidências científicas.
O presidente da associação mencionou um trabalho do Massachusetts Institute of Technology (MIT) realizado com 100 pessoas jovens. No exemplo apresentado, 70 participantes acreditaram em uma informação não científica e 30 não acreditaram. Quando receberam a informação científica, a reação foi inversa.
Ele também criticou o uso de inteligência artificial generativa para buscar orientação sobre as canetas e realizar automedicação. Ribas Filho afirmou que o problema também é um desafio na Argentina, no Chile e no Paraguai, e citou a população brasileira de 220 milhões de habitantes.
Discussão no congresso
O tema foi debatido no primeiro dia do XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026), realizado nesta quinta-feira (24), em São Paulo. Promovido pela Abran, o evento reúne mais de 3,5 mil profissionais de saúde do Brasil e do exterior, com 600 trabalhos científicos, mais de 200 palestras e 70 simpósios ao longo de três dias.
Ribas Filho considera positiva a possibilidade de inclusão das canetas emagrecedoras no rol de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), medida estudada pelo governo federal. Ele, porém, avalia que a oferta enfrentaria dificuldades financeiras e seria destinada a um grupo restrito.
Como comparação, o nutrólogo citou a insulina fornecida pelo SUS e afirmou que o diabetes atinge 10% da população. Também estimou que a obesidade alcança entre 26% e 28%, quase 30%, o equivalente a 60 milhões de brasileiros. Para ele, o custo dos medicamentos exigiria critérios mais rigorosos para definir o atendimento.








