A Associação Psiquiátrica Americana (APA) anunciou que pretende lançar uma nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-6, nos próximos anos. A inclusão de elementos da biologia está entre os principais planos para atualizar o manual, usado por profissionais clínicos no diagnóstico e por cientistas na orientação de pesquisas.
A proposta surge em um cenário no qual a psiquiatria ainda não dispõe de biomarcadores cientificamente válidos para a maioria das condições. A exceção envolve certas proteínas utilizadas no diagnóstico da doença de Alzheimer. A falta de medidas biológicas objetivas é uma das razões pelas quais o DSM-5, lançado em 2013, recebeu críticas de clínicos e pesquisadores.
O que pode ser medido
Biomarcadores são características identificadas de forma objetiva para avaliar um processo biológico ou a resposta de uma pessoa a determinado tratamento. Eles podem ser obtidos por exames de sangue, exames de imagem e outros métodos associados a uma doença.
Na medicina, níveis de hemoglobina glicada ajudam a diagnosticar e acompanhar o diabetes; o colesterol é usado para avaliar o risco cardiovascular; e tomografias computadorizadas permitem medir o tamanho de um tumor. Na psiquiatria, porém, as alterações biológicas relacionadas às doenças mentais são sutis e as tecnologias atuais têm dificuldade para detectá-las.
Histórico familiar de doença mental e trauma estão entre os principais fatores de risco para transtornos mentais graves. Essas influências ambientais dificultam separar com precisão os efeitos dos fatores biológicos daqueles ligados a aspectos psicossociais.
Outro obstáculo é a sobreposição entre os transtornos. Ansiedade e transtornos de humor podem apresentar sinais e sintomas semelhantes, e pacientes podem atender simultaneamente aos critérios para os dois grupos. O mesmo ocorre entre esquizofrenia e transtorno bipolar com psicose. Além disso, condições como transtorno depressivo maior e esquizofrenia provavelmente reúnem subgrupos com mecanismos diferentes, apesar de apresentarem características parecidas.
Sinais de avanço na pesquisa
A neurobiologia da saúde mental avançou desde a publicação da quinta edição do DSM. Um dos exemplos é a doença de Alzheimer. Em março de 2025, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou um exame de sangue capaz de detectar formas específicas das proteínas amiloide e tau, ajudando a confirmar o diagnóstico. Esse foi o primeiro caso de biomarcador para uma doença que afeta o cérebro e o comportamento.
Outra frente envolve o sistema imune. A proteína C reativa (PCR), produzida pelo fígado em resposta a lesões e infecções, aparece em níveis elevados em aproximadamente 30% dos pacientes com depressão. A hipótese é que ela possa ajudar a identificar um subtipo de pacientes com maior probabilidade de responder a determinados tratamentos.
Também são estudados fatores de risco genéticos. Eles não causam diretamente os transtornos, mas podem aumentar a probabilidade de desenvolvimento. Como o efeito das variantes é cumulativo, sua combinação em um escore de risco poligênico poderia oferecer uma estimativa mais ampla do risco de doença.
Esses biomarcadores genéticos ainda não estão prontos para uso clínico. A combinação de informações genéticas e psicossociais, contudo, pode contribuir para a adoção de uma medicina de precisão na psiquiatria.
A próxima versão do manual
A discussão sobre exames para transtornos psiquiátricos já aparecia em uma pesquisa online realizada em 2013 pelo psiquiatra Henry Nasrallah com colegas que visitavam a página da revista científica Current Psychiatry. Na ocasião, 65% dos participantes previram que o DSM-6 incluiria exames laboratoriais para o diagnóstico dessas condições.
O comitê estratégico do DSM trabalhou na incorporação da neurobiologia ao manual. A expectativa é que o conhecimento acumulado permita ampliar a compreensão dos transtornos sem tratar cada diagnóstico como uma doença biologicamente isolada. Pesquisadores consideram que essas condições podem compartilhar fatores genéticos e ambientais e reunir diferentes processos.
O manual fornece uma linguagem comum e uma estrutura conceitual para profissionais de saúde mental no acompanhamento de pacientes e famílias. Com o avanço das pesquisas, a inclusão de dados genéticos, exames de imagem cerebral e exames de sangue poderá, no futuro, apoiar diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados.








