Um coletivo de acadêmicos, artistas, artistas e representantes de entidades da sociedade civil publicou nesta quarta-feira (30), no jornal francês Le Monde, um manifesto sobre os riscos para as eleições brasileiras. O grupo acusa os Estados Unidos de tentar influenciar o resultado do pleito e atribui a Flávio Bolsonaro (PL) participação nessa estratégia.
O documento afirma que o Brasil votará nos dias 4 e 25 de outubro para escolher o próximo presidente. Para os signatários, a eleição definirá não apenas o ocupante do cargo, mas também a continuidade do país como democracia.
Entre os nomes que assinam o artigo estão os Prêmios Nobel de Economia Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz, o economista Thomas Piketty, o artista Chico Buarque, o ex-jogador Raí e a diretora de teatro Ariane Mnouchkine. Também aparecem Erika Campelo, Gabriel Feltran, Nina Santos e Youlie Yamamoto, representantes de associações, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil.
Críticas ao governo Bolsonaro
O manifesto faz uma retrospectiva do período iniciado com a chegada de Jair Bolsonaro (PL) ao poder, em 2018. O grupo menciona o desprezo pelas instituições, a condução da pandemia de Covid-19, com centenas de milhares de mortes, e a tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral do ex-presidente, em 2022.
O texto também registra que Jair Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão por causa dessa tentativa de ruptura institucional. Entre 2019 e 2022, segundo os signatários, o governo promoveu ataques contra movimentos negros e indígenas, mulheres e pessoas LGBTQI+.
Os autores citam a paralisação da demarcação de terras indígenas, o recorde de desmatamento na Amazônia e o aumento de ataques contra pessoas LGBTQI+. Também apontam níveis elevados de violência contra mulheres, incluindo feminicídios, e agressões contra defensores do meio ambiente.
Com a condenação e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o manifesto afirma que o ex-presidente indicou o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, para dar continuidade à sua plataforma. Para o coletivo, a candidatura representa a manutenção de um projeto associado a ataques aos direitos humanos e à democracia.
Economia e sistema eleitoral
O programa econômico atribuído a Flávio Bolsonaro é descrito como ultraliberal, com austeridade fiscal, redução do papel do Estado, privatização de empresas públicas e diminuição da carga tributária. Na avaliação dos signatários, essas medidas podem reduzir investimentos públicos, enfraquecer políticas de redistribuição, ampliar desigualdades e elevar a pobreza entre os grupos mais vulneráveis.
O manifesto relaciona essa orientação às iniciativas do Brasil durante a presidência do G20 em 2024, quando o país defendeu uma tributação mínima sobre os super-ricos.
O grupo também acusa Flávio Bolsonaro de lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral diante de diplomatas estrangeiros antes da votação e, depois, afirmar que nunca havia questionado a integridade do processo. Os signatários interpretam a sequência como uma preparação para contestar judicialmente o resultado, independentemente de vitória ou derrota.
Pressão internacional
O artigo aponta como centro da denúncia a atuação do governo de Donald Trump. Segundo o manifesto, os Estados Unidos impuseram ao Brasil tarifas alfandegárias de até 25%, apresentadas como resposta ao processo contra Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro viajou a Washington no dia 28 de maio e se reuniu com Donald Trump, o senador Marco Rubio e o vice-presidente J. D. Vance. Na ocasião, pediu publicamente uma supervisão internacional das eleições brasileiras.
Para o coletivo, uma potência estrangeira tenta influenciar abertamente uma eleição soberana com a participação de um dos candidatos. O grupo afirma que a movimentação integra uma ofensiva reacionária continental, com triunfos eleitorais mencionados na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia e nos Estados Unidos.
Os signatários lembram ainda que o Brasil viveu uma ditadura militar de 1964 até 1985. Na conclusão, convocam a mídia, lideranças políticas, instituições europeias e a sociedade civil francesa a acompanhar o pleito, rejeitar interferências estrangeiras e apoiar as instituições, os movimentos sociais e a sociedade civil brasileira na defesa da democracia e dos direitos humanos.








