Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
O Brasil em um ponto
Mundo

Empresa propõe partículas na atmosfera para reduzir o aquecimento global

A Stardust Solutions estima custo anual de US$ 10 bilhões, mas cientistas apontam riscos climáticos, ambientais e éticos.

Empresa propõe partículas na atmosfera para reduzir o aquecimento global

A Stardust Solutions desenvolve partículas para serem lançadas na estratosfera e refletir parte da energia solar de volta ao espaço. A empresa estima que cada aplicação custaria cerca de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) e afirma que a tecnologia poderia reduzir a temperatura global em 0,5 °C.

Criada em 2023, a companhia israelo-americana é liderada por Yanai Yedvab e tem Amyad Spector como cofundador. Os dois são ex-físicos nucleares do governo israelense. A empresa já arrecadou US$ 75 milhões (cerca de R$ 420 milhões) com investidores.

Como funcionaria

A proposta está dentro da chamada geoengenharia solar, área que busca diminuir artificialmente as temperaturas globais ao bloquear parte da luz do sol. O método mais estudado envolve o lançamento de partículas minúsculas na estratosfera por aeronaves de alta altitude ou balões.

A ideia imita um fenômeno observado após grandes erupções vulcânicas. Em 1991, o Monte Pinatubo, nas Filipinas, lançou dióxido de enxofre na atmosfera em quantidade suficiente para provocar um resfriamento de 0,5 °C por mais de um ano.

A maior parte dos estudos sobre a tecnologia usa dióxido de enxofre, mas o composto pode contribuir para a chuva ácida e reduzir a camada de ozônio. A Stardust afirma ter buscado materiais que apresentassem menos riscos e fossem mais controláveis.

A empresa desenvolveu duas partículas. Uma é feita de sílica amorfa, usada como aditivo antiaglutinante em alimentos, cremes dentais e cosméticos. A outra tem um núcleo de carbonato de cálcio, principal componente das cascas de ovos, envolto por uma camada de sílica amorfa. Os dois compostos ocorrem naturalmente e também podem ser produzidos de forma sintética.

Segundo Yedvab, 907 mil toneladas métricas dessas partículas seriam necessárias para produzir um resfriamento de 0,5 °C. A quantidade teria de ser reposta todos os anos. Ele disse que cada aplicação custaria cerca de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões).

Cientistas questionam segurança e controle

Os testes da Stardust ainda estão restritos ao laboratório. A empresa espera iniciar experimentos ao ar livre nos próximos anos, mas afirma que só faria isso sob supervisão e orientação direta de governos.

David Keith, professor de ciências geofísicas na Universidade de Chicago, afirmou que a empresa exagera ao apresentar suas partículas como menos arriscadas que o enxofre. Uma das preocupações é a possibilidade de as partículas absorverem metais ou outras substâncias nocivas e carregá-las pelo ar, onde poderiam ser inaladas.

Kelly Wanser, diretora-executiva da SilverLining, disse que ainda não se sabe se o material funcionaria em larga escala nem como se comportaria na atmosfera. Raymond Pierrehumbert, professor de física planetária na Universidade de Oxford, afirmou: “A geoengenharia solar envolve alguns dos aspectos menos compreendidos do sistema climático”.

Cientistas também alertam para possíveis alterações nos padrões meteorológicos, no regime de chuvas e nas monções. Essas mudanças poderiam afetar profundamente a produção de alimentos. Outro risco citado é o chamado choque de terminação: se a tecnologia fosse interrompida de forma repentina depois de iniciada, poderia ocorrer um aquecimento abrupto e catastrófico ao longo de apenas alguns anos.

A Stardust afirma que seu método poderia ser ajustado gradualmente. Yedvab disse que as partículas cairiam da atmosfera após cerca de um ano e que o nível de resfriamento permaneceria ajustável pelos governos.

Debate sobre empresas privadas

A participação de uma companhia com fins lucrativos acrescenta outra camada ao debate. Analistas questionam se uma empresa que desenvolve tecnologia proprietária poderia garantir a transparência necessária para uma decisão com efeitos globais.

Sarah Doherty, professora associada de ciências atmosféricas na Universidade de Washington, afirmou que a ciência atual não apoia apostas financeiras nem a condução da sociedade para abordagens específicas. Chukwumerije Okereke, professor de governança global e políticas públicas na Universidade de Bristol, demonstrou preocupação com decisões tomadas por países ricos e investidores privados, em vez de países pobres.

A Stardust diz estar em contato com formuladores de políticas públicas para criar regras para os testes. Yedvab sustenta que decisões sobre a aplicação da tecnologia devem caber exclusivamente aos governos. Ele também afirma que a geoengenharia solar não substituiria a redução da queima de combustíveis fósseis.

Experiências anteriores mostram a resistência ao método. Planos de cientistas de Harvard para realizar voos de teste no Ártico sueco foram abandonados em 2021 após oposição local. Em 2022, um experimento não autorizado da startup americana Make Sunsets no México levou o país a proibir iniciativas desse tipo.

Um estudo recente classificou a implantação da tecnologia como uma fonte de profunda incerteza sistêmica, com potencial de desestabilizar ainda mais o sistema climático global. Também permanecem questões sobre quem decidiria quando usar a geoengenharia solar, quem pagaria pelos custos e como seriam tratados os países beneficiados ou prejudicados.

Para Yedvab, a tecnologia poderia dar à humanidade tempo para enfrentar as causas da crise climática. Os críticos, porém, afirmam que os riscos ainda são pouco conhecidos e que a alternativa não deve servir de justificativa para adiar cortes significativos nas emissões de poluentes.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Receba nossa newsletterUma seleção diária, direto na sua caixa de entrada.

As mais lidas

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5