O embaixador Rubens Ricupero avalia que o fim do ciclo político de Donald Trump não levará automaticamente à retomada do cenário geopolítico anterior. Para ele, as principais pautas internacionais voltarão a exigir coordenação entre os países, mas essa articulação terá de ser reconstruída. O diplomata vê no Brasil credenciais para exercer liderança, principalmente nas agendas ambiental e climática.
Ricupero afirma que a política externa dos Estados Unidos passou a ser conduzida com forte componente ideológico durante o segundo mandato de Trump. Na América Latina, ele descreve a estratégia como uma “Nova Doutrina Monroe”, em referência ao conceito do século XIX associado ao controle do continente. Entre os episódios citados estão o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, o apoio financeiro a Javier Milei na Argentina e as tarifas comerciais impostas ao Brasil.
“Ele transforma a política externa em um conflito de ideologias”, disse Ricupero, ao comentar a atuação do presidente norte-americano. O embaixador também afirmou que o Departamento de Estado dos Estados Unidos articula novas sanções contra integrantes do Judiciário brasileiro, apesar da posterior suavização do discurso de Trump.
Pressões sobre o Brasil
Para Ricupero, medidas destinadas a influenciar a política brasileira podem produzir efeito contrário ao pretendido. “Acho que qualquer medida mais ostensiva de influenciar nas eleições acabaria favorecendo [a reeleição do presidente] Lula”, declarou.
O diplomata avaliou positivamente a postura do governo Lula e do Ministério das Relações Exteriores diante das pressões de Washington. Segundo ele, o Itamaraty e o presidente mantêm uma conduta adequada, enquanto a diplomacia brasileira continua concentrada na busca por entendimento entre os países vizinhos.
A articulação regional, porém, enfrenta dificuldades diante da mudança política na América Latina. Ricupero considera o Brasil praticamente o único país de centro-esquerda em uma região que avançou claramente para a direita. Ele também lembrou que a tentativa de Lula de reativar a União de Nações Sul-Americanas no início do mandato não conseguiu adesão. Apesar das divergências, o Brasil mantém relações estáveis e sem conflitos abertos com os vizinhos.
Na avaliação do embaixador, a economia brasileira está menos exposta às barreiras dos Estados Unidos por causa da demanda asiática e chinesa por produtos primários. Grãos e carne bovina sustentam o comércio brasileiro, que, segundo ele, permanece pouco vulnerável, a menos que haja deterioração do cenário.
Mudança no comércio exterior
Ricupero comparou a estrutura atual das exportações brasileiras com a de outros períodos. Em 1912, durante a atuação do Barão do Rio Branco, os Estados Unidos absorviam 36% das vendas externas do país. O alinhamento prioritário com os norte-americanos permaneceu até a década de 1960.
Atualmente, a China e o continente asiático respondem por cerca de 50% das exportações brasileiras. A Europa aparece em seguida, com 16%, e os Estados Unidos representam cerca de 10%. A presença chinesa também se destaca nos investimentos produtivos diretos em áreas como energia elétrica e petróleo.
O embaixador projeta mudanças no equilíbrio político dos Estados Unidos após as eleições legislativas de meio de mandato, com previsão de avanço da oposição democrata no Congresso. Uma posição mais forte dos democratas, segundo ele, aumentaria a pressão sobre Trump e poderia levar à abertura de um novo processo de impeachment.
Ricupero afirmou que, em 2027, o presidente norte-americano terá de se dedicar mais às questões domésticas. Ainda assim, ressaltou que Trump é um sintoma de uma tendência existente na sociedade dos Estados Unidos, e não a causa de todos os problemas. Na avaliação dele, cerca de 30% da opinião pública norte-americana compartilha dessa visão, grupo que não desaparecerá com o fim do mandato.
Conflitos e agenda climática
O diplomata contabiliza entre 50 e 60 conflitos em andamento no mundo, incluindo a guerra na Ucrânia e a crise no Oriente Médio. Ele também citou a paralisação de órgãos multilaterais e o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio após o encerramento, sem acordo, das negociações da Rodada Doha.
Nesse ambiente, Ricupero considera que o Brasil pode participar da reconstrução das bases diplomáticas internacionais. A transição ecológica e a agenda climática seriam os principais campos de atuação do país, que, segundo o embaixador, possui uma matriz energética limpa e renovável. Com o esgotamento do atual ciclo político nos Estados Unidos, ele prevê uma “grande reconstrução” da cooperação internacional.








