O economista francês Thomas Piketty afirmou que uma aproximação do Brasil com o nacionalismo associado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prejudicaria o país e os esforços para reformular a ordem econômica internacional. Na avaliação dele, o Brasil tem posição estratégica nas discussões sobre tributação dos super-ricos, sistema monetário global e financiamento de políticas climáticas.
Piketty defendeu a continuidade da atuação brasileira em fóruns multilaterais. Durante a presidência brasileira do G20, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a tributação internacional das grandes fortunas no centro das discussões econômicas. Para o economista, uma articulação mais ampla entre países do Sul Global, com participação da Índia, poderia aumentar a pressão sobre os países ricos.
“Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima”, afirmou.
Tributação dos bilionários
Piketty avaliou que a discussão sobre um imposto para bilionários avançou politicamente, mesmo sem um acordo amplo. Segundo ele, governos europeus passaram a ter mais dificuldade para rejeitar diretamente a proposta. O economista também afirmou que o financiamento da transição climática deverá levar à cobrança de uma contribuição maior das pessoas mais ricas, tanto no Norte quanto no Sul Global.
Dados do World Inequality Lab indicam que os 10% mais ricos concentram cerca de três quartos da riqueza mundial, enquanto a metade mais pobre detém 2%. O grupo dos 0,001% mais ricos, formado por menos de 60 mil pessoas, reúne patrimônio equivalente a três vezes a riqueza da metade mais pobre da humanidade.
Piketty é codiretor do World Inequality Lab e professor da Paris School of Economics. Ele participou da elaboração do Relatório de Justiça Global, lançado em junho pelo laboratório. O documento propõe mudanças no sistema financeiro internacional, redução das desigualdades e políticas ambientais em uma transformação econômica e ecológica até 2100.
Reforma do sistema internacional
Entre as propostas estão um sistema monetário menos dependente de uma única moeda nacional, mecanismos globais de tributação da riqueza, redução da jornada média de trabalho e transferência de mão de obra para setores como educação e saúde. O relatório também defende mudanças que combinem melhoria do padrão de vida, redução da desigualdade e limites ambientais.
O economista questionou o papel central do dólar em uma economia mundial multipolar. Ele defendeu uma unidade monetária internacional baseada em uma cesta de moedas dos Estados Unidos, da China, da Índia, do Brasil e de outros países.
Piketty também citou a necessidade de mudanças no Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo ele, os Estados Unidos detêm cerca de 15% do PIB mundial e dos direitos de voto no Fundo, mas essa participação poderia cair para perto de 10% pelos próximos 10 ou 20 anos.
Diante das dificuldades para reformar a ONU, o FMI e o Banco Mundial, o economista defendeu coalizões de países dispostos a avançar em áreas específicas sem a adesão universal. Ele citou as negociações de uma convenção internacional de cooperação tributária no âmbito das Nações Unidas.
Críticas à agenda econômica
Piketty também criticou partidos de esquerda e centro-esquerda por, na avaliação dele, terem perdido capacidade de apresentar propostas econômicas para trabalhadores e segmentos de renda média. Para o economista, a convergência em torno da liberalização dos mercados e da redução da progressividade tributária deslocou o debate para identidade e controle das fronteiras.
Ele afirmou que a desigualdade, a tributação e a estrutura de classes precisam voltar ao centro da discussão política. Também disse que a falta de mudanças estruturais pode produzir um mundo mais desigual, mais quente e mais instável.
Apesar da avaliação negativa sobre a conjuntura internacional, Piketty afirmou acreditar que forças democráticas e lutas sociais podem transformar instituições. Para ele, a consolidação de uma ordem internacional multipolar tende a ampliar a influência dos países do Sul Global.








