O Japão está ampliando a capacidade de atingir alvos a longas distâncias e fortalecendo sua indústria militar, em uma mudança que reduz a dependência dos Estados Unidos e altera a postura adotada pelo país desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O movimento inclui a compra de mísseis, drones, aeronaves de transporte, munições e sistemas de tecnologia autônoma.
Neste ano, o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi pediu ao Parlamento a liberação de US$ 55,6 bilhões (R$ 285 bilhões) para o próximo ano fiscal. O Ministério da Defesa afirma que os recursos serão usados para ampliar estoques e adquirir mísseis guiados, equipamentos de defesa e novas tecnologias militares.
Preparação para conflitos prolongados
A avaliação do Ministério da Defesa é que o ambiente de segurança no entorno japonês é o mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O governo considera que o país precisa estar pronto não apenas para impedir ataques ao seu território, mas também para sustentar um conflito prolongado.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia influenciou essa revisão. Para Tóquio, o conflito mostrou a importância de manter grandes estoques de munição, repor equipamentos, preservar a produção industrial durante uma guerra e utilizar drones em larga escala.
A China é o principal fator de preocupação. Nas últimas décadas, o país ampliou sua Marinha, suas forças de mísseis e sua aeronáutica, além de desenvolver capacidades no espaço e no ambiente cibernético. Parte dessa expansão ocorre perto do território japonês e de rotas marítimas importantes para o comércio do Japão.
As ilhas do sudoeste estão no centro da atenção de Tóquio. O arquipélago de Ryukyu, que inclui Okinawa, se estende em direção a Taiwan e ao Mar da China Oriental. Um eventual ataque chinês contra Taiwan, ilha democrática reivindicada por Pequim, poderia aproximar forças militares chinesas do Japão, ameaçar rotas comerciais e envolver bases americanas na região.
Em 2025, Takaichi afirmou que uma ofensiva chinesa contra Taiwan poderia justificar uma reação das Forças de Autodefesa japonesas se a soberania do Japão estivesse em risco. Desde então, Tóquio vem instalando no sudoeste sensores, equipamentos de guerra eletrônica, sistemas de mísseis e drones.
Mudança iniciada antes do governo atual
A revisão da política militar começou antes de Takaichi. A Constituição promulgada em 1947 estabeleceu, no Artigo 9, a renúncia à guerra como instrumento para resolver disputas internacionais. As Forças de Autodefesa foram criadas em 1954, e durante décadas os governos mantiveram uma interpretação restritiva sobre o uso da força.
A flexibilização ganhou força no governo de Shinzo Abe. Em 2014, seu segundo governo reinterpretou as regras constitucionais para permitir que o Japão ajudasse aliados em determinadas circunstâncias, mesmo sem um ataque direto ao território japonês. A mudança virou lei no ano seguinte.
Em 2022, durante o governo de Fumio Kishida, o Japão aprovou uma nova estratégia de segurança e reconheceu a necessidade de ter uma capacidade de contra-ataque. A doutrina passou a admitir, em situações específicas, ataques contra instalações militares responsáveis por uma ofensiva antes que novos ataques fossem realizados.
O governo japonês rejeita a ideia de que tenha abandonado sua política defensiva. Segundo Tóquio, a capacidade de contra-ataque serve para impedir agressões e aumentar o custo de uma eventual ofensiva contra o país.
Arsenal de longo alcance e novos parceiros
O Japão investe em mísseis capazes de alcançar alvos a mais de mil quilômetros, armas lançadas de submarinos, sistemas contra radares, drones, caças F-35 e tecnologias de comando. Um dos principais programas é a modernização do míssil antinavio Type-12, que terá versões com alcance superior ao modelo original.
A ampliação militar também ocorre em meio à pressão dos Estados Unidos para que seus aliados assumam uma parcela maior dos gastos com defesa. O Japão antecipou a meta de elevar as despesas militares para aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
O pesquisador Philip Shetler-Jones, do Royal United Services Institute (RUSI), avaliou que o avanço chinês mudou o equilíbrio regional e levou o Japão a ampliar sua própria capacidade para ajudar na dissuasão e diminuir a dependência de Washington. “O Japão precisa ter capacidade para contribuir mais para a dissuasão coletiva”, escreveu.
Apesar da busca por maior autonomia, o Japão mantém a aliança de defesa com os Estados Unidos, que continuam com bases militares no país. O governo também ampliou a cooperação com Filipinas, Indonésia, países europeus e membros da Otan.
Coreia do Norte, Rússia e indústria militar
Os testes de mísseis da Coreia do Norte demonstram, segundo o governo japonês, que Pyongyang pode ameaçar diretamente o território do Japão. O programa nuclear norte-coreano aumenta o risco considerado por Tóquio.
A Rússia também integra o cenário de preocupação. O país mantém presença militar no Extremo Oriente e estreitou sua aproximação com a China e a Coreia do Norte. Em agosto, Vladimir Putin visitou a ilha de Iturup, administrada pela Rússia e reivindicada por Tóquio, provocando um protesto formal do governo japonês.
O fortalecimento militar inclui a expansão da produção doméstica. O volume previsto de projetos contratados na área de defesa subiu de cerca de US$ 108 bilhões (R$ 553,92 bilhões) para US$ 272 bilhões (R$ 1,39 trilhão). No orçamento deste ano, cerca de US$ 600 milhões (R$ 3 bilhões) foram destinados à base industrial militar, com investimentos em linhas de produção, cadeias de fornecimento e fabricação em maior escala.
Em abril deste ano, Japão e Austrália fecharam contratos para o fornecimento das primeiras fragatas japonesas da classe Mogami à Marinha australiana. O Japão também desenvolve, com Reino Unido e Itália, um caça de nova geração no Global Combat Air Programme (GCAP), projeto lançado em 2022 e com entrada em serviço prevista para 2035.
Para Jeffrey Hornung, especialista em segurança japonesa da RAND Corporation, a abertura de mercados externos pode ajudar os fabricantes japoneses a ganhar escala e reduzir custos. A expansão ocorre junto com a participação do país em projetos internacionais de armamentos e com a aproximação militar de parceiros europeus.








