Lançada em 26 de agosto pela Netflix, a série documental A Morte da Esposa do Pastor reconstitui a trajetória de Mica Miller, cantora encontrada morta em abril de 2024 no Lumber River State Park, na Carolina do Norte. O caso foi considerado oficialmente um suicídio, mas a produção apresenta relatos e registros que mostram uma história marcada por controle, conflitos conjugais e pedidos de ajuda.
Relação com o pastor
Em três episódios, o documentário reúne mensagens, vídeos caseiros, depoimentos de familiares, registros policiais e outros materiais para reconstruir a vida de Mica. A produção afirma que o relacionamento com o pastor John-Paul Miller começou quando ela tinha 13 anos e se transformou em uma relação de poder.
Mica passou a frequentar a Igreja Solid Rock com a família ainda adolescente. Aos 18 anos, tornou-se líder do coral. Depois de se casar com Jeremy, seu primeiro marido, ela começou a trabalhar como assistente de John-Paul, a quem via como mentor espiritual. Segundo a irmã dela, Sierra, o pastor passou de mensagens elogiosas a textos com tom romântico.
O relacionamento se tornou público em 2015, quando John-Paul disse à congregação que havia cometido uma “falha moral” no casamento que mantinha na época. A produção afirma que ele controlava decisões do casal, incluindo os períodos do noivado e do casamento, e obrigou Mica a tatuar sua assinatura.
A produtora-executiva Alan Goldstein avalia que o pastor usou sua posição na igreja e seu poder financeiro para reduzir a liberdade da esposa. A diretora Julia Willoughby Nason, que comandou o projeto com Michael Gasparro, afirma que a série mostra como esse poder se acumulou ao longo do tempo. O documentário também destaca que Mica buscou apoio da família, da igreja e da polícia.
Últimos dias e investigação
Mica e John-Paul haviam tentado encerrar o casamento antes de abril de 2024, mas os processos foram retirados antes de avançar. Em 11 de março de 2024, ela relatou às autoridades que se sentia vigiada por uma pessoa de comportamento estranho. Também disse ter encontrado uma lâmina de barbear no pneu do carro.
Segundo Sierra, Mica acreditava que poderia morrer a qualquer momento. “Se um dia eu aparecer com uma bala em minha cabeça, não fui eu, foi JP [John-Paul]”, teria dito a irmã. Dias antes de morrer, Mica apresentou novos papéis de divórcio e pediu uma ordem de restrição contra o marido.
Em 27 de abril de 2024, ela comprou uma arma e, horas depois, ligou para a polícia dizendo que tiraria a própria vida. As autoridades a encontraram morta pouco depois, com um disparo na cabeça. No dia seguinte, John-Paul conduziu normalmente a missa e anunciou a morte da esposa.
John-Paul não foi acusado formalmente pela morte de Mica. Ele responde a um processo por cyberstalking, sob acusação de usar meios digitais para persegui-la, e nega as acusações. O julgamento está marcado para outubro deste ano.
A série também aborda a mobilização da família de Mica, que divulgou registros de seus pedidos de ajuda, e defende mudanças na legislação da Carolina do Sul para que padrões prolongados de controle e intimidação recebam tratamento específico nos tribunais.








