O wellness deixou de ocupar apenas uma posição complementar na hotelaria e passou a fazer parte da estratégia de hotéis e resorts. Spas, programas de sono, alimentação funcional, atividades ao ar livre e experiências de longevidade são incorporados à hospedagem para atender à procura por estilos de vida mais saudáveis e explorar novas oportunidades de receita.
Preço, localização, reputação e marca continuam entre os principais fatores de decisão na reserva. O bem-estar, porém, pode influenciar outras etapas da relação com o hóspede: estimular o consumo dentro do empreendimento, elevar o ticket médio, prolongar a estada e favorecer a fidelização.
Para Camilla Barretto, CEO da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), o wellness já integra a ideia de luxo no segmento de alto padrão. A percepção está ligada a elementos como tempo, espaço, silêncio, natureza, privacidade e atenção personalizada, em vez de apenas ao excesso de serviços.
A oferta também pode contribuir para a precificação, desde que esteja conectada à experiência completa. A simples presença de spa, academia, aulas de yoga ou comida vegana não garante a aceitação de uma tarifa maior. O valor tende a ser percebido quando quarto, alimentação, programação, natureza e atendimento formam uma proposta coerente.
Do serviço adicional ao motivo da viagem
O wellness começa a influenciar não apenas a escolha do hotel, mas a própria decisão de viajar. Longevidade, saúde preventiva, recuperação física e saúde mental aparecem entre as motivações associadas à procura por empreendimentos que colocam o bem-estar no centro do produto.
Nesse modelo, o spa continua relevante, mas deixa de concentrar sozinho a experiência. O viajante pode buscar efeitos de bem-estar no atendimento, no descanso, na alimentação e no movimento. A conexão entre esses elementos pode ampliar o consumo durante a permanência e aumentar a disposição para retornar.
Camilla Barretto afirma que essa relação também pode ser avaliada pelo LTV (Lifetime Value), desde que o comportamento do hóspede seja acompanhado por alguns anos. A repetição da hospedagem, nesse caso, estaria associada à sensação proporcionada pelo conjunto da experiência, e não apenas à estadia em si.
No Rosewood São Paulo, o Asaya Spa by Guerlain atende hóspedes e público externo. A equipe identifica sinais de interesse antes da chegada, como perguntas sobre academia e áreas de bem-estar, e usa essas informações para recomendar tratamentos alinhados às preferências de cada cliente.
Ana Flores, gerente de Wellness e Spa do empreendimento, explica que os perfis têm motivações diferentes. O turista que busca experiências de wellness pode organizar a viagem em torno da desconexão e de rituais regenerativos. Já clientes corporativos de alto padrão podem procurar o spa para reduzir o estresse e aproveitar melhor o tempo disponível.
Indicadores vão além da receita
O Rosewood São Paulo acompanha receita, ticket médio e taxa de utilização, mas também considera NPS (Net Promoter Score), avaliações dos clientes e recompra. A volta do hóspede é tratada como sinal de que suas necessidades e expectativas foram atendidas.
A academia e as saunas estão incluídas na tarifa. Os tratamentos, por sua vez, não fazem parte dos pacotes de hospedagem e são registrados como receita complementar. Ainda assim, a operação pode influenciar decisões relacionadas a tarifas, pacotes e distribuição.
Ana Flores ressalta que nem todos os hóspedes escolhem o empreendimento por causa do wellness. Arquitetura, gastronomia e localização também podem determinar a reserva. Para ela, o risco de superestimar essa oferta aparece quando ela não é autêntica.
No Rituaali, hotel spa localizado em Penedo (RJ), saúde e longevidade estruturam o próprio produto. Lorena Trindade, sócia-diretora do empreendimento, afirma que a viagem passou a ser vista por parte do público como uma oportunidade de cuidado pessoal profundo. Os efeitos percebidos em vitalidade, disposição e clareza mental podem reforçar a decisão de reserva e a permanência.
O hotel oferece quatro programas baseados na Medicina do Estilo de Vida: Controle de Peso e Saúde Metabólica, Gestão de Estresse e Ansiedade, Mobilidade e Recuperação Funcional e Bem-Estar. Também há acompanhamentos relacionados a sono profundo, mapeamento de saúde, movimento e controle do tabagismo.
A empresa ampliou as opções para diferentes disponibilidades de tempo. Além das imersões, criou o AIKA, voltado ao rejuvenescimento natural e à estética integrada, e passou a oferecer a modalidade SPA Day. Entre as terapias está a cápsula de flutuação.
Bem-estar ligado ao destino
No Preabeach Experience, que tem dois empreendimentos no Ceará, o wellness está associado ao ritmo do sol e do mar, ao descanso e à relação com a comunidade local. A percepção nem sempre aparece de forma clara no momento da compra, mas pode ser identificada no contato feito pela equipe após a reserva.
A empresa observa que o spa está entre os principais atrativos citados por alguns clientes, ao lado da gastronomia e da localização. A proposta, porém, não se limita aos tratamentos: o objetivo é relacionar o bem-estar à forma como o hóspede ocupa o tempo e vivencia o destino.
Pesquisas de satisfação ajudam a identificar pontos de melhoria. O grupo também acompanha como a autenticidade da experiência e a aproximação com a comunidade local se relacionam à duração da estada.
Os diferentes modelos mostram que o retorno do wellness pode aparecer na tarifa, no consumo, no tempo de permanência ou na recorrência. A avaliação depende da capacidade de cada empreendimento de integrar a oferta ao seu posicionamento e medir o valor gerado para o hóspede e para a operação.









