A sucessão em famílias empresárias não deve ser organizada em torno de uma única pessoa, mas das diferentes funções necessárias para preservar patrimônio, legado e negócios. A avaliação é de Marcia Dolores, fundadora da Mardô Family House Integration, que estuda o perfil de famílias empresárias no Brasil.
Cerca de US$ 90 trilhões acumulados pelos baby boomers e pela Geração X devem virar herança nos próximos 20 a 30 anos. O UBS informa que um quinto dos ativos globais está nas mãos de pessoas com mais de 75 anos.
Para Dolores, parte dessas famílias ainda trata a sucessão como a escolha de alguém capaz de repetir o que o fundador ou o atual responsável fez. Essa lógica pode deixar de lado herdeiros com outras habilidades, interesses e expectativas.
“É um erro colocar o foco em achar a pessoa ideal, sem considerar que existem mil possibilidades dentro de um núcleo familiar”, disse. Para ela, a sucessão envolve um patrimônio, um legado e um grupo empresarial, não apenas uma posição de comando.
Diferentes caminhos para os herdeiros
A especialista afirma que o processo deve incluir pessoas com potencial e vontade de atuar como executivas, herdeiros interessados em empreender, integrantes que desejem administrar o patrimônio familiar e aqueles que prefiram viver de renda. Cada perfil, segundo ela, exige preparação e espaço próprios.
Dolores também critica a escolha baseada exclusivamente em experiências passadas. Um estudo em conclusão, segundo ela, mostra que a maioria dos sucedidos começa a pensar no tema em cima da hora e procura alguém que replique seu modo de atuação. Em um dos trabalhos citados, uma família colocou um filho em uma função para a qual ele não tinha as habilidades necessárias, apesar de outros três apresentarem alternativas mais adequadas.
A psicóloga afirma que empresas interessadas em atravessar mudanças de mercado e de mentalidade precisam olhar para as novas gerações. Jovens preparados podem contribuir para a criação de negócios, a aproximação com públicos mais novos e a expansão do legado familiar.
Geração Z e participação nos negócios
Uma pesquisa conduzida pela Mardô a partir de 200 projetos de vida declarados por jovens entre 19 e 25 anos indica que 55% querem participar do negócio da família, mas com mais liberdade. Dolores diz que esse grupo busca equilíbrio e não vê a presença constante do proprietário como a única forma de gestão.
A especialista avalia que considerar a riqueza apenas como um peso pode levar à rápida perda de valor durante a sucessão ou ao uso pouco estratégico dos recursos. Para aproximar os herdeiros dos negócios, ela defende o envolvimento desde a infância.
Famílias que mantêm os filhos afastados das empresas podem deixá-los sem conhecimento sobre as atividades e sem preparação para as responsabilidades futuras. Nesse cenário, alguns herdeiros procuram sair de negócios com os quais nunca tiveram envolvimento efetivo, por meio de atos de liquidez, o que pode provocar conflitos.
Preparação começa cedo
Dolores cita as famílias ligadas ao grupo Votorantim e os Moreira Salles como exemplos de processos estruturados. No caso da Votorantim, os herdeiros começam a ser preparados por volta dos cinco anos, com explicações adaptadas à idade sobre o significado de ser herdeiro e a responsabilidade de preservar o legado.
Ela também relata o caso de uma família que incluiu nas conversas uma neta de 12 anos inicialmente afastada das discussões. Em outra situação, um integrante que escolheu seguir a carreira artística encontrou espaço fora da empresa principal, com recebimento de dividendos e um negócio ligado à arte que aproximou a geração seguinte, formada por jovens de 13 a 15 anos.
Participação das mulheres
Um levantamento da Mardô aponta que 87% das mulheres que são esposas ou herdeiras em famílias de altíssimo patrimônio líquido não participam ativamente de decisões estratégicas. Para Dolores, muitas são afastadas sob a ideia de que a gestão patrimonial seria pesada ou difícil demais.
Ela afirma que não é necessário trabalhar na empresa da família, mas é importante conhecer o negócio, os números, a participação de cada integrante, os dividendos distribuídos e os critérios usados nessa divisão. A especialista menciona o caso de uma herdeira de uma empresa do agronegócio que recebe dividendos defasados há 15 anos e não sabe explicar a razão.
Na avaliação de Dolores, o envolvimento das mulheres também faz parte da responsabilidade de preservar o legado. A gestão pode contar com outras pessoas, mas as herdeiras precisam acompanhar as decisões e buscar compreender o patrimônio do qual participam.









