O agronegócio brasileiro enfrenta uma combinação de riscos que reduz a margem dos produtores e aumenta a incerteza sobre crédito, exportações e produtividade. Entre os principais pontos estão a anomalia climática no Pacífico, a queda das cotações de grãos e açúcar, os custos maiores dos insumos e a judicialização no campo.
Clima e mercado
O chamado Super El Niño já elevou a anomalia de temperatura no Oceano Pacífico para mais de +2,5°C. O fenômeno pode favorecer secas, ondas de calor e perdas de produtividade. Ao mesmo tempo, a oferta global abundante e as safras recordes de soja e milho pressionaram as cotações internas. Com despesas em alta, a relação de troca de grãos e açúcar piorou e as margens dos produtores foram comprimidas.
O câmbio também pesa sobre a renda de quem vende ao exterior. Mesmo quando os preços em dólar permanecem firmes, a valorização do real reduz a receita obtida com as exportações. No cenário internacional, tarifas anunciadas por Donald Trump, a disputa comercial entre Estados Unidos e China e os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio fragmentam rotas e mercados, ampliando a volatilidade.
Insumos, inflação e juros
A dependência de importações deixa o setor exposto à alta de diesel, fertilizantes e fretes. Os fertilizantes ficaram mais caros justamente quando os preços recebidos pela produção recuaram. O petróleo está na faixa de US$ 90 por barril.
A combinação de juros elevados, crise no Estreito de Ormuz e Super El Niño pressiona simultaneamente custos, transporte e oferta agrícola. A FAO projeta alta nos preços dos alimentos, com risco maior para as populações mais vulneráveis.
A Selic chegou a 15% neste ciclo. O nível encarece o custeio, os investimentos e a renegociação das dívidas de produtores e empresas rurais. No governo federal, a dívida pública deve chegar a 87% do PIB no ano que vem e pode superar 100% nos próximos anos, caso a trajetória atual continue. Gastos acima do teto do arcabouço fiscal somam mais de R$ 160 bilhões. O gasto público corresponde a 47% do PIB, enquanto a carga tributária alcança 34%.
Crédito e segurança jurídica
O novo Plano Safra aumentou o volume total de recursos, mas diminuiu o crédito equalizado destinado à agricultura empresarial. O seguro rural cobre apenas 6% da área cultivada, proporção considerada insuficiente diante dos riscos climáticos.
Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram mais de 60% em doze meses. O ambiente também reúne disputas fundiárias relacionadas ao marco temporal, licenciamentos pendentes, invasões de terras produtivas, a proibição da dragagem de rios na Amazônia e disputas tributárias que dificultam crédito e investimento.
A resposta apontada para esse conjunto de pressões inclui disciplina fiscal, gestão de riscos climáticos e de preços, abertura de mercados, agregação de valor, redução das vulnerabilidades, atualização da política agrícola e maior segurança jurídica. A avaliação é que essas medidas podem abrir espaço para um novo ciclo de crescimento do setor.








