Londrina, Terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Economia

Como a crise de 1873 transformou euforia financeira em instabilidade política

A crise global mostrou que avanços reais podem ser acompanhados por preços excessivos, crédito elevado e consequências além dos mercados.

Como a crise de 1873 transformou euforia financeira em instabilidade política

A crise de 1873 começou depois de um período em que ferrovias, comércio, urbanização e novas formas de financiamento pareciam confirmar um futuro de prosperidade contínua. O problema não estava necessariamente nas oportunidades, mas nos preços pagos por elas e no volume de crédito usado para financiá-las.

A análise está no livro 1873: The Rothschilds, the First Great Depression, and the Making of the Modern World, de Liaquat Ahamed. A obra apresenta a crise como a primeira de alcance realmente global e mostra que seus efeitos ultrapassaram o sistema financeiro.

Uma economia conectada pelo capital

No fim da década de 1860, três grandes obras reforçavam a percepção de que o mundo estava ficando menor. Em maio de 1869, Union Pacific e Central Pacific se encontraram em Promontory Summit, Utah. A viagem entre Nova York e São Francisco caiu de cerca de seis meses para seis dias.

Em novembro, a inauguração do Canal de Suez encurtou a ligação marítima entre Europa e Ásia. Em março de 1870, uma ferrovia de quase 2 mil km conectou Bombaim a Calcutá. A ideia de um mundo mais integrado chegou à literatura com a inspiração para A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Julio Verne.

A ferrovia era a principal tecnologia transformadora do século XIX, mas exigia grandes somas. Como o dinheiro necessário nem sempre estava no país onde o projeto era executado, formou-se uma rede internacional de capitais.

Os Rothschild ocupavam posição central nessa estrutura, com casas em Londres, Paris, Frankfurt e Viena e conexões com Nova York. A família, porém, não aparece como protagonista da especulação. Sua postura era de cautela, baseada em diversificação, informação e preservação de capital.

Quando uma oportunidade real fica cara demais

A euforia se espalhou por ferrovias, imóveis, governos e projetos de desenvolvimento. Berlim e Viena passaram a concentrar especulação, novos prédios, riqueza rápida e operações financeiras sofisticadas.

O ponto central não era que todas as oportunidades fossem falsas. As ferrovias existiam, a industrialização avançava, o comércio se integrava e as cidades cresciam. O risco estava na distância entre essas transformações e os preços que os investidores aceitavam pagar.

Uma tese pode estar correta e, ainda assim, resultar em um investimento errado. A crise não surgiu apenas porque pessoas acreditaram em uma mentira, mas porque extrapolaram as consequências de fatos verdadeiros: o progresso tecnológico e econômico.

O colapso da Bolsa de Viena, em 9 de maio de 1873, foi o estopim. Uma bolha imobiliária e financeira havia sido alimentada por crédito e especulação na Áustria. Quando a confiança desapareceu, a bolsa perdeu cerca de 45% do valor em um único dia.

Nos Estados Unidos, Jay Cooke tinha papel relevante no financiamento do governo durante a Guerra Civil. Em setembro de 1873, quando o fluxo de capital secou, a Jay Cooke & Company quebrou. O fechamento provocou corridas bancárias e vendas em Wall Street. Mais de US$ 1 bilhão em títulos ferroviários americanos acabaria entrando em default.

A crise vira dívida e disputa de poder

O fim da queda das ações não encerrou o problema. As dívidas permaneceram, os projetos continuaram e as instituições precisaram definir quem absorveria as perdas.

O sistema monetário daquele período era essencialmente bimonetário, com ouro e prata desempenhando papéis centrais. Grandes economias passaram a adotar o padrão-ouro e a abandonar progressivamente a prata. A mudança reduziu a oferta monetária internacional e contribuiu para uma longa onda deflacionária.

Nos Estados Unidos, o enfraquecimento econômico alimentou conflitos políticos e sociais que contribuíram para o fim da Reconstruction, esforço de reorganização do país depois da Guerra Civil.

No Império Otomano e no Egito, o endividamento externo reduziu a capacidade dos governos de honrar compromissos e levou à perda de soberania. No Egito, a expansão da dívida e os gastos públicos e privados permitiram que credores estrangeiros assumissem controle crescente das finanças. O país acabaria ocupado pela Grã-Bretanha.

No Império Otomano, a crise ajudou a iniciar uma longa fragilidade financeira e política que levaria ao fim do Império e à redefinição das fronteiras da Europa.

Ressentimento e procura por culpados

As perdas também produziram efeitos sociais e políticos. Os Rothschild, embora tenham mantido cautela durante a bolha, foram alvo de ataques antissemitas. A crise alimentou a narrativa de que “as finanças judaicas” seriam responsáveis pelas dificuldades econômicas.

Uma combinação de crédito, especulação, política monetária, excesso de investimento e fragilidade fiscal acabou atribuída a um grupo específico. A crise de 1873, assim, ultrapassou os mercados e ajudou a alimentar nacionalismo, populismo e a procura por bodes expiatórios.

A lição para novas tecnologias

A história de 1873 não afirma que uma transformação tecnológica seja falsa apenas porque pode gerar consequências negativas. O alerta é outro: a existência de uma mudança real não valida todas as expectativas construídas sobre ela.

A inteligência artificial pode ser vista como uma tecnologia capaz de transformar a história e criar valor, mas a convicção sobre seu potencial não elimina a necessidade de examinar riscos, preços e premissas. Como resume uma frase atribuída a Mark Twain no livro, “a história não se repete, mas rima”.

A crise de 1873 foi uma história de decisões tomadas sob incerteza por banqueiros, investidores, políticos e empresários. Seus efeitos mostraram que uma crise financeira também pode alterar relações de poder entre credores e devedores, impérios e países periféricos, governos e investidores.

Artur Wichmann, chief investment officer da XP Inc., afirma que o livro ajuda a preservar essa perspectiva diante de uma transformação tecnológica sem precedentes.

Texto produzido pela Redação Ponto de Hoje com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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