WASHINGTON — Estados Unidos e China anunciaram nesta segunda-feira listas de produtos que terão tarifas reduzidas, em um acordo destinado a interromper, ao menos por enquanto, a escalada comercial entre as duas maiores economias do mundo. Cada país será beneficiado em cerca de US$ 30 bilhões em mercadorias: produtos americanos importados pela China e itens chineses que entram nos Estados Unidos.
A medida foi anunciada depois de meses de negociações e de uma visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Washington. Durante o encontro, Donald Trump adotou gestos incomuns de deferência ao líder chinês, em uma tentativa de criar um ambiente de aproximação entre os governos.
Segundo o Ministério do Comércio chinês, cerca de 90% dos produtos incluídos nas listas deverão voltar às tarifas de nação mais favorecida, princípio da Organização Mundial do Comércio (OMC) que prevê tratamento tarifário não discriminatório entre parceiros comerciais.
Produtos agrícolas ficam no centro da negociação
A relação de itens agrícolas que a China poderá comprar dos Estados Unidos com tarifa menor inclui milho, trigo, sorgo, carnes bovina, suína e de aves, lácteos, óleo de soja e farelo de soja. A soja em grão, porém, não foi incluída. As vendas americanas do produto continuam sujeitas a uma sobretaxa adicional de 10%, além da tarifa de 3% de nação mais favorecida.
A exclusão é relevante porque a soja é o principal produto agrícola negociado entre os dois países e foi justamente o item em que o Brasil mais ampliou sua presença desde o início da guerra comercial, em 2017.
Para Marcos Jank, professor do Insper e especialista em comércio e agronegócio, o entendimento não configura, neste momento, um acordo preferencial entre China e Estados Unidos capaz de reduzir o espaço brasileiro. Na avaliação dele, os países estão principalmente recompondo as condições tarifárias anteriores à escalada comercial.
“O acordo que foi anunciado é um tit-for-tat, um toma lá dá cá”, disse Jank. O especialista afirmou que os dois governos reduziram tarifas e restabeleceram condições de acesso que haviam sido modificadas durante a disputa.
O valor de US$ 30 bilhões não representa necessariamente compras desse montante em produtos agrícolas americanos pela China. A estimativa é indicativa. Os produtos agrícolas e relacionados da lista movimentaram US$ 17 bilhões em comércio em 2024.
Efeito prático pode ser limitado
Um estudo do Insper aponta que parte das concessões obtidas pelos Estados Unidos pode ter impacto reduzido no curto prazo. No milho, a produção doméstica chinesa limita a necessidade de importações. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta produção de 306 milhões de toneladas na China na safra 2026/27, ante importações de 6 milhões de toneladas.
A China também tem produção suficiente para atender boa parte da demanda de frango e carne suína. Na carne bovina, a limitação está nos Estados Unidos, que enfrentam restrições de oferta. Em julho, as exportações americanas do produto acumulavam queda de 8% no ano.
Além das tarifas, os governos decidiram criar um Conselho de Comércio e um grupo de trabalho voltado à agricultura. As estruturas deverão discutir acesso a mercados e questões regulatórias. Para o Brasil, o novo modelo de relacionamento pode ser tão relevante quanto as reduções tarifárias anunciadas.
Brasil disputa espaço no mercado chinês
A guerra comercial alterou a origem das importações chinesas de commodities. Em 2016, os Estados Unidos eram o principal fornecedor agrícola da China. Atualmente, o Brasil exporta cerca de US$ 51 bilhões em produtos agropecuários para o país asiático, contra aproximadamente US$ 12 bilhões dos americanos. Argentina, Tailândia e União Europeia também passaram a ocupar posições relevantes nesse mercado.
Jank avalia que uma negociação agrícola mais ampla entre Xi Jinping e Trump ainda pode ocorrer. Para o agronegócio brasileiro, a competição dependerá cada vez mais da capacidade de lidar com tarifas, cotas e acordos bilaterais, além de preço e eficiência.
A China já usa esses instrumentos para administrar as compras de carne bovina. O país impôs cotas por três anos, com o objetivo de proteger e desenvolver sua produção local. Em 2026, o limite brasileiro é de cerca de 1,1 milhão de toneladas, enquanto o dos Estados Unidos fica em aproximadamente 160 mil toneladas.
Desde julho, as exportações brasileiras de carne bovina para a China já utilizaram mais de 90% da cota anual sem sobretaxa definida pelo governo chinês para este ano.
Estados Unidos e União Europeia também adotam tarifas, cotas e outras medidas para administrar seus mercados. Nesse cenário, empresas brasileiras precisarão manter maior proximidade com os clientes e desenvolver estratégias para um comércio mais administrado.
A escala continua sendo uma vantagem do Brasil. “A gente tem volume, preço competitivo e qualidade. Somos o maior do mundo hoje, então a gente precisa garantir, defender os nossos mercados”, afirmou Jank.









