ESTADOS UNIDOS — Um grupo de ativistas removeu uma câmera de trânsito da Flock Safety instalada em uma rodovia e copiou os arquivos armazenados no equipamento. O material revelou que o sistema monitora veículos, placas, bicicletas e pedestres, além de registrar imagens e dados de localização.
A empresa afirmou que a ação violou a legislação. “a remoção não autorizada e a violação de uma câmera da Flock é ilegal”, declarou um porta-voz. A fabricante também disse não ter recebido notificações formais pelo canal destinado ao reporte de falhas e afirmou que não dispunha de detalhes suficientes para avaliar o caso.
A Flock Safety, fundada nos Estados Unidos, fornece tecnologia para forças policiais e associações de moradores. Seus produtos incluem leitores automáticos de placas e sensores acústicos de disparos de armas de fogo. A integração em nuvem permite que delegacias de diferentes cidades e estados consultem trajetos de motoristas em uma rede compartilhada nacionalmente.
O que os arquivos mostraram
A memória do dispositivo continha uma chave de criptografia que permitiu acessar pastas restritas e liberar milhares de gravações e registros. O programa interno identificava veículos, placas, bicicletas e pedestres, registrando a posição exata e o nível de certeza atribuído a cada identificação.
Testes com o código recuperado indicaram que o sistema reconhecia pedestres e até a foto do rosto de um jornalista, embora a empresa diga não utilizar reconhecimento facial ativo.
Os arquivos cobriam 21 dias de operação. Nesse período, a câmera registrou a passagem de cerca de 50,2 mil veículos e produziu 1,6 milhão de imagens. Ao detectar um automóvel, o equipamento fazia uma sequência rápida de fotos em diferentes condições de luminosidade. Depois, enviava os melhores ângulos e os recortes da placa pela rede celular aos computadores centrais da companhia.
Relatórios internos também apontaram mais de 27 mil erros por falta de espaço de armazenamento, com reinicializações repentinas. Em alguns casos, o sistema confundiu adesivos automotivos, suportes de lojas e o retalho de uma bandeira em uma mochila de motociclista com placas de trânsito.
Alertas anteriores e sistemas no Brasil
Em junho de 2025, o pesquisador Jon Gaines, conhecido como GainSec, publicou uma análise sobre brechas nos modelos Falcon e Sparrow. Segundo o relatório técnico, as câmeras saíam de fábrica com a inicialização destravada e sem criptografia no chip de memória principal.
A Flock minimizou o problema em comunicado de maio de 2025, afirmando que as falhas exigiam contato físico com o poste e que os vídeos eram apagados rapidamente após o envio à nuvem. A invasão, porém, mostrou que os arquivos permaneciam no equipamento por tempo suficiente para permitir o resgate de dezenas de milhares de mídias.
Noel Pichardo, ex-policial de Rhode Island que deixou a corporação para se opor à expansão da empresa, criticou a sabotagem. “Esse tipo de vigilantismo só vai cristalizar a crença da polícia e do Estado de que essa ferramenta é necessária”, afirmou.
No Brasil, sistemas com lógica semelhante já são usados por forças de segurança. O Córtex, administrado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, reúne dados de radares de velocidade, câmeras de rodovias e sistemas municipais para ler placas por reconhecimento óptico de caracteres.
Cidades e estados também operam modelos próprios de cercamento eletrônico, chamados de Muralhas Digitais ou Muralha Paulista. Essas ferramentas identificam veículos em vias públicas e enviam alertas aos centros de operações da polícia quando há registro de roubo, furto ou restrição judicial.








